Ontem o dia era cinza

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Ontem era cinza

o dia

o céu sobre mim

o asfalto sob os passos

as esquadrias da janela na sala em que estava.

 

Cinza.

Mesmo sem nuvem.

Sem som.

Só a memória da notícia que chegara

e desbotara o presente.

 

Choveu

transparente

forte.

Incômodos os pés alagados,

fria a calça contra a pele úmida.

 

Milagrou.

Era noite

e saiu o sol.

Era noite

e acenaste

do outro lado da rua,

sorriste

com as mãos estendidas

e me cobriste de luz e de amor.

 

Era noite

quando o dia nasceu.

 

 

traição

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Diziam que o marido a tinha trocado por outra. E que, coitada, quando descobrisse, ela pensaria que pior do que fracassar era ser abandonada por uma dessas jovens de peitinho durinho. Iria, de certo, apontar a outra na rua, chamando-a de periguete, interesseira, feiticeira. Ou espalhar por aí que o marido entrara na crise da meia-idade e perdeu o bom senso.

Mas a verdade é que, quando encontrou o marido com seu novo relacionamento, por acaso, num restaurante no Centro da cidade, todos se cumprimentaram civilizadamente, mesmo ela entendendo, naquele instante, que o romance era anterior à separação. Mesmo reconhecendo o perfume deixado nas blusas que lavou até que o homem deixasse a casa.

Digo a você que, de fato, ela não se importou muito quando o marido foi embora. Sabe como é: onde não há mais paixão, não há mais indignação. Estava exausta dos anos de apatia. O homem vivia resmungando nas noites após o jantar. Deitava-se cedo para fugir do sexo. Dormia tardes inteiras de sábado para não precisarem conversar e sempre que ela achava a brecha para aproximar-se, roçando a perna dele com a ponta dos seus pés, ele a dispensava. Sem entender o porquê, tentava satisfazer as mentiras que ele inventava para enganarem-se, achando que, resolvendo os problemas, veria renascer o amor.

Lembra-se de quando ele inventou a história das toalhas? Disse que, como ela não trocava as toalhas durante a semana, havia sempre cheiro de umidade no banheiro e isso lhe tirava o humor. Por achá-la desleixada, não sentia vontade de tocá-la. Passou, então, a trocar as toalhas duas vezes na semana, sem nem questionar que ele próprio poderia fazê-lo já que se incomodava tanto. Passou a cheirá-las sempre pela manhã e a cobrir a roupa de banho com uma suave fragrância de flor quando lavadas, antes de guardá-las nas gavetas. Mais fácil resolver essa insatisfação do que criar polêmica com o marido.

Mas, como continuassem separados, ela insistiu nos motivos e veio a desculpa seguinte: eram os dias em que as crianças gritavam. Ah, o comportamento dos filhos impediam a libido, atrapalhavam o sono e a culpa era dela que não tinha pulso e não lhes dava limite. Sem questionar que ele próprio poderia impor os tais limites que achava necessários, ela quis proteger as relações da família. Passou a deixar as crianças no quarto quando o pai estava em casa, a frear-lhes na espontaneidade e a pedir silêncio, como se a casa fosse uma capela. No fundo, entretanto, achava triste vê-los caminhar na direção do pai para o beijo de boa noite, quietos, desconfiados das reações. Mas pior seria, achava, o homem entendiar-se e ir embora, deixando os filhos e a mulher.

Mesmo com a movimentação da casa sob controle, o homem não voltou a procurá-la. Ela afundava numa tristeza que só ela sabia: a de ser rejeitada diariamente, não só na cama mas no abraço de chegada em casa e na atenção pelas conversas. Então, na última vez em que ela teve coragem de queixar-se, ele lhe deu a desculpa definitiva: enjoara do seu cheiro, do cheiro dos seus cabelos, do cheiro do seu sexo, do cheiro da sua pele. Ela se desmontou e sentiu o fim quando a frase dele terminou. Sabia que os cheiros aproximam distâncias, antecipam-se ao beijo e ao roçar da pele no despertar do desejo. Contra a observação do homem que ainda amava, não havia argumento possível e sua autoestima não se preservou.

Lembra-se daqueles dias em que a encontramos por aí, meio desligada? A mulher andou triste. Sem ver saída. Perguntando-se se era possível fazer alguém apaixonar-se de novo quando a paixão acabou. Desafio difícil para os que partilham a intimidade. Não há mais mistérios. Não há mais nada a revelar. Adivinham-se os gestos, sabe-se o que funciona ou não, o que se gosta ou não. A tristeza dela foi virando um abismo para dentro de si. No início, doía tanto que ela mal conseguia respirar ou dormir. Doía a ponto de ela não controlar o choro no banho, no ônibus para o trabalho, à beira do fogão enquanto cozinhava ou mesmo quando abria os olhos pela manhã. Até que, num determinado dia, ela acordou e a dor tinha-se estancado. Não foi um alívio. Era mais uma anestesia. Era um não sentir – alegria ou tristeza; euforia ou dor; luto ou renovação. Era ser espectro de si, ouvir as vozes, ver as cores, reconhecer as faces mas o cérebro apenas reagir – só lembrar de piscar e de inspirar e de fazer a boca abrir diante do garfo e o corpo apagar quando o sono vem.

Eu ouvia de longe mas com nitidez: o homem começou a reclamar da ausência de mimos, dos longos silêncios, dos gestos mecânicos e da comida menos saborosa. Queixou-se de como ela falava baixo na hora de conter as crianças. Das coisas fora do lugar…que só faltava, àquela altura, ela ser desorganizada. Dizia essas coisas para ela, acredita? Depois de apagar a chama em seu coração! Mas não estava apática porque quisesse irritá-lo ou impor-se. Apenas não tinha forças, distraía-se muito, não percebia o dia chegar ao fim e, de repente, já era hora de deitar-se.

Então, num dia, ao abrir os olhos pela manhã, pensou que, como não podia mais sentir, não o amava mais. E a sua incapacidade de amar, veja só, a libertou. Sem amar o homem que a rejeitava, podia, com facilidade, rejeitá-lo também. No coração. Na mente. Sem dor. Mandá-lo para fora de casa. Não adiantaria ele jurar vinganças porque, como não sentia, não havia espaço para o medo. Nem adiantaria ele lembrar-lhe os momentos bons e os anos de cumplicidade porque, como não sentia, não havia compaixão. Muito menos ele dizer que estaria disposto a tentar de novo, que agora vira que não fizera o bastante, porque ela não sentia. Nada.

Foi assim que ele acabou deixando a casa. Os dias e as noites seguintes se passaram sem que ela desse falta do homem na cama, porque ele já se deitava quase na beira do colchão, com o corpo afastado do dela. Muito menos de seus comentários na hora do jornal porque, há muito, perderam o hábito de conversar. E nunca do abraço de bom dia, porque ele deixara de tocá-la e, havia anos, estava acostumada somente ao abraço dos filhos.

Você sabe como é…o tempo cuida de nós. O silêncio da casa foi-se quebrando aos poucos, depois que as crianças voltaram a espalhar-se pelos cômodos, com os brinquedos, as risadas e os tombos. Ela estendeu os seus pertences pelos espaços deixados nos armários, arrumando-os melhor. Pode separar a lingerie da gaveta de meias e pôr os vestidos em cabides distintos dos casacos. Comprou umas coisas novas: umas bijouterias, umas caixas, um amarrado de sachês e colocou lá.

E uma amiga foi buscá-la para uma noite de diversão. A mulher decidiu, então, gastar o dinheiro que guardara nos últimos anos. Economizado pelas viagens que não fez porque o homem decidiu que dava trabalho alimentar as crianças fora dos horários da casa. Poupado pelos teatros a que não foi porque o marido dizia que era perigoso circular à noite na cidade. Escondido no fundo da gaveta porque o homem, nos últimos meses, andava gastando demais com bebidas. Possivelmente com amantes, diziam, mas ela, naquela tristeza em que vivia, não enxergava. Parece até que não via novela e nem prestava atenção nos cochichos nas reuniões de família. Roteiro mais previsível não há do que “homem que deixa a mulher só pode ter novo amor”. Nem acredito que a história que lhe conto passa, também, por esse clichê.

Então a amiga a levou ao restaurante que sempre quiseram conhecer. E a vida, como eu dizia, é mesmo como nos filmes. Pois não foi lá, justamente, que se encontraram por acaso ela e o homem, acompanhado do novo amor? Surpreendeu-se: ele se desmanchava em olhares e sorrisos com um rapaz da sua idade. Distinto, calmo, flertivo. Crise de meia-idade, eu diria. Mas ela sabia que essas questões são bem mais profundas. Por isso, cumprimentou os dois, educadamente, ignorando o pequeno constrangimento.

Ela se admirou. Seu sentimento mais importante, contudo, era o de alívio. Alívio por não precisar da aprovação dele para o vestido que usava, guardado desde a última vez em que saíram e que se ajustava mais forte, na altura dos seios. Alívio por saber-se realmente livre da relação com ele e por poder sentir-se delicadamente sensual no tecido que contornava seu corpo. Alívio por saber que a invenção dos seus fracassos era mentira. Só depois daquele dia, apareceu quem quisesse contar-lhe histórias do amante: “virou-lhe a cabeça!”, “um escândalo!”, “quem diria?” E ela não prestou atenção. Porque isso foi, como disse, depois, quando antes não tinha mais importância.

Foi assim que me contaram: naquele dia, logo no primeiro dia em que ela saiu de casa e a verdade se revelou; naquele dia, em que ela queria experimentar a alegria e viu-se obrigada a encarar seus fantasmas, foi quando tudo começou a acontecer.

No restaurante, tocou sua música favorita. A mesma que ela dançava nas festas da faculdade, quando, caloura, tentava paquerar os veteranos que lhe sorriam. A que ela dançou várias vezes, em rodas com as amigas, sóbrias ou não, calçadas ou não, entre gargalhadas e sentimentos. Levantou-se e foi para a pista de dança, onde só havia casais. A amiga hesitou. Mas a mulher não esperou companhia. Estava solta: passou as mãos pela cintura, fechou os olhos, era como se a música atravessasse seu corpo. Mesmo discreta no canto do salão, ela se destacava mexendo braços, quadril, entregando-se ao ritmo. Ela estava ali. Qualquer um que a olhasse a enxergaria.

Depois – ela própria contaria -, sentiu que a música vibrava nela; primeiro na barriga, depois no peito. Que a sensação foi ficando mais forte e ela foi-se sentindo toda: frio no estômago, face ruborizada, seios livres roçando a roupa, pele macia em que a alça do vestido deslizou, gota de suór descendo pelas costas, cabelos chicoteando o pescoço, coração acelerando. Pele, pulso, vibrações. Ela se sentia e ao sentir-se, sentia tudo. Voltou a existir, assim, do nada.

Foi alegre para casa. Ainda sorria, mesmo com a noite alta. Correu com as crianças, que ainda estavam acordadas, perseguiu-as em volta da mesa de jantar até abraçá-las antes que alcançassem o quarto. Dormiu de lingerie. Fez ovos no café da manhã. Foi de salto alto para o trabalho. Andou descalça sobre o canteiro da praça, sentindo a umidade e o perfume do gramado. Sorriu ao porteiro. Virou assunto entre os vizinhos que lhe percebiam a transformação. Ria-se com a TV. E a vida era a mesma e era para continuar a ser monótona, eu acho. Mas ela a acha mais clara, sente o vento, os cheiros, desperdiça horas com os preparos da comida que porá na mesa, com os cabelos antes sair, com a casa quando recebe os amigos. Continua assim, vê? Sempre sorrindo e lendo na varanda, à noite, as pernas para cima, depois que as crianças dormem. É de estranhar-se que, tendo sido abandonada, não a encontremos triste pelos cantos. Que não ande por aí amargurada de solidão. Que dispense os pretendentes que lhe surgem. Outro dia mesmo, recusou-se a sair de novo com um rapaz só porque ele lhe pediu que não usasse roupas tão justas. Pode uma mulher abandonada, já com filhos, na idade dela ser cheia de critérios? É muito risco que se corre, mas não serei eu a dizer-lhe. Não sei, não, mas, depois que descobriu a traição, acho que virou a cabeça, coitada. Deu para ser feliz sem motivo. Pode?

em tempos de FB

Liguei o computador e vi que ela modificou a foto do perfil. O cabelo arrumado, o sorriso sincero, o fundo azul sugerindo que ela se move em cenários de paz e tem a vida colorida. E porque sorria na foto, pensei que estava feliz.

Não adivinhei, contudo, que, no instante seguinte ao flash, ela desmanchou a expressão, limpou a maquiagem e recolheu-se, com a mente fixa na lembrança do amor perdido.

Não sabia que, num momento anterior, ele aparecera de braços dados com a nova amada, mais jovem, deslumbrada por tudo que nele, para ela, era história antiga.

Quando deitou-se, o olhar da jovem que dera o braço ao seu homem foi a lembrança mais doída, o que abriu uma fenda palpável entre seu passado e o agora. Ela já não era mulher de deslumbres, mas de admirar ou repelir realidades. Não era mais capaz de devotar a alguém uma paixão adolescente, embora fosse capaz de sentir uma compaixão que poucos são capazes de alcançar: o diagnóstico generoso e humano de que somos todos tão imperfeitos e tão frágeis que precisamos ser acolhidos por pequenos e constantes gestos de amor.

Ela não possuía aquele olhar em seu catálogo de emoções. Essa impossibilidade a torturava. Havia outros, calmos, angustiados, brilhantes de alegria, mas não aquele, repleto de uma inocência pulsante. Tinha cicatrizes e, por isso, seus gestos eram menos espontâneos.

Suas rotas eram previstas e controláveis. Assim, mantinha-se reta durante os dias, sorrindo, os olhos cansados disfarçados em sombra e rímel, a alegria favorecida por blush e batom. E ria-se ao final das frases ditas, mesmo que não lhes tivesse dedicado total atenção. Se, ao fim do dia, percebesse no peito algum incômodo, esperava a noite chegar, respirava profundamente, fazia orações e dormia.

Na manhã seguinte, repetia rotinas comuns. Estampava sua silhueta contra o fundo da parede da sala para atualizar a página da rede social, por exemplo. Escrevia mensagens de confiança para compartilhar com os amigos virtuais. Rabiscava desenhos de paisagens em tons pastéis, como se não as visse em todas as cores. Escolhia as músicas e as poesias que falavam dos sentimentos que ela, confusa, distinguia mas não conseguia administrar.

Entretanto, cruzar com o homem e a jovem a desestabilizou. Sentiu pulsar um coração diferente: com vigor, reativo, machucado e triste. Sentiu a perda do futuro que sonhara em seus braços, nos jantares que compartilharam, na cama que dividiram uma vez, nas promessas que se iniciaram nas noites seguintes. Só, então, percebeu que voltara a sonhar, a sentir e a pensar num futuro que subverteria seus hábitos, sem nunca ter dito isso a ele.

De nada disso eu sabia quando vi que mudara a foto de perfil. Por isso, enxerguei sua imagem com ternura e pensei em como é bom o som do seu riso, em como é difícil dispensar sua companhia. Lembrei-me da força com que estancou sua dor e correu na direção da sua felicidade há tempos atrás e de que eu fora testemunha de como isso foi difícil: para ela, ir embora não se tratou, apenas, de abandonar um amor mas todo um condicionamento de vida; de arriscar-se a, talvez, nunca ver-se recompensada com um novo amor ou nunca sentir-se num lar, pois partira sem ter para onde voltar.

Comentei sob a foto que ela estava linda e que adorava vê-la feliz. Como se ela pudesse, ao ler minhas palavras, perceber toda a intensidade com que as escrevia. Como se pudesse saber que eu sei que abraçar a vida lhe custa, permanentemente, o esquecimento dos sonhos de que precisou desvencilhar-se e que entendo por que isso a tornou arisca e incrédula.

Ela leu o que escrevi e me surpreendeu com uma mensagem àquela hora da madrugada: “Como amigo, me diz, você acha que sou esquecível? Que eu não poderia ser a escolha definitiva do homem que eu escolhesse?”.

Foi então que me contou o que lhe acontecera. Era tarde e adivinhei sua solidão. Pensei numa resposta que fosse sincera mas não a magoasse. “Você não é esquecível, é perfeita. Mas você não parece disponível”.

Mandou-me uma carinha com um beijo. Um coraçãozinho na ponta da boca da imagem. Pequenino, um ponto vermelho. Suave como ela. E deixou a conversa, transferindo sua angústia para mim.

Noite adentro, escrevi-lhe as palavras que lhe diria se ela não me escapasse: que não se dá conta da força que a sustenta diante daqueles que a tentam puxar de volta aos lugares antigos que a fizeram infeliz; que a confusão e a dor em que se encontra demonstram que não perdeu a capacidade de envolver-se nem de amar; que a vida não é colorida como sugere a foto mas aquele sorriso capturado é verdadeiro (não se pode fingir aquela energia); que não percebe o carinho com que os meus olhos repousam sobre ela; e que eu, ainda preso a laços irreais e sem coragem de rompê-los,  sinto que apenas posso sonhar tocá-la mas não tocá-la de fato nem fazer-lhe promessas.

Por acompanhá-la, sei que seus atributos são raros e aqueceriam qualquer um na rotina dos dias. Que sua ternura seria reconhecida na companhia das manhãs e nas mãos dadas diante dos abismos da vida. Mas, para isso, precisa deixar alguém aproximar-se a ponto de tornarem-se rotineiras as conversas, a amizade, o sexo, os gestos de carinho.

Esta era sua tragédia pessoal: como avança, desconfiada, na direção do desconhecido, usa armaduras para proteger-se e não emite sinais nem é sensível aos gestos mais ordinários em sua direção. Fecha a porta à dor mas também à alegria.

A minha tragédia é estar condenado, eu sim, ao esquecimento. Ser possibilidade invisível aos olhos da mulher que ocupa a minha tela e o meu pensamento, e, paradoxalmente, ser o portador dos sentimentos que ela procura.

Não dei enter. Li as frases escritas e as senti profundamente. Apaguei-as. Mandei-lhe, de volta, outra carinha com um beijo. E pus para dormir o amor, antes que raiasse.

 

 

Para amar é preciso abstrair

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Sento com o amigo no bar em frente à praia e pedimos um chope para afastar o calor. Morando fora há tempos, ele quer matar saudades do bairro. Cansado da cidade, que me parece cada vez mais cheia de carros, mais desigual entre as gentes e mais quente, eu o atualizo sobre os problemas.

Nos últimos meses, eclodiram tantas crises no Rio que suas entranhas parecem expostas. Parte de um país imerso numa crise político-econômica, o Rio é como um microuniverso em que pode sentir-se de perto a pressão que está sobre a nação. Nem sei se um chope resolve o nó na garganta.

– Ah, mas tem isto! – diz, esticando a cabeça na direção da orla do Flamengo – Não resolve, mas distrai.

Dou uma risada.

– Você me fez lembrar de uma namorada que tive e que dizia: “para amar, é necessária uma certa abstração” – digo.

Na época, achei aquilo muito sábio. Guardei a frase.

Gostávamos de andar, notando os detalhes urbanos da orla, como o desenho dos prédios no outro lado da baía e o trecho em destaque da ponte Rio-Niterói. Íamos pela pista de corrida até o largo onde o Pão de Açúcar surge enorme, com a famosa falha na pedra imitando o desenho de uma íbis. Beirávamos as pistas de velocidade do Aterro, admirando-lhe os desenhos sinuosos e o contraste entre o asfalto cinza, o verde e o azul do fundo. Sob a sombra das árvores em direção à Glória, voltávamos para casa.

– Você me amaria se enxergasse tudo que sou? – ela me disse, na mesma ocasião, provocando-me com sua teoria.

Pela cabeça dela, desdobravam-se várias ideias. Que não tinha uma alma leve. Que, antes de sentar-se, tinha coberto a grama com a canga porque sabia que havia, por ali, gatos de rua em quantidade. Que vestiu um biquíni mas não mergulhou porque viu o esgoto desaguar no fim da praia. Que não era, afinal, espontânea mas estava, realmente, feliz naquele dia.

Entendi, então, que me pedia para que, mesmo que enxergasse seus defeitos, me mantivesse encantado por ela. Porque ela era capaz de amar o mar, mesmo se poluído. A brisa, mesmo se o gramado estivesse sujo. As crianças, as bicicletas, até os gatos! E sempre deslumbrava-se com o contorno das rochas no fim da praia.

Era uma história boba mas acabo entristecido, derretido em lembranças e suores na tarde quente. Sinto como se a beleza não compensasse mais os problemas. Tenho medo de ter desaprendido a amar. O amigo me resgata:

– É em todo lugar, cara. Não está fácil, não. É a crise.

– Nacional!

– Pô, mundial!

Depois do chope, hospedo o amigo no apartamento da Oswaldo Cruz.

Mais tarde, debruçados sobre a janela lateral da cozinha, gastamos as últimas palavras antes de dormir e vemos, na rua, as pistas iluminadas e vazias. Mas o verde e o azul do Aterro se cobrem de negro e a paisagem vira um borrão com a chegada da noite. Então, inesperadamente, sinto um encantamento. Porque sei que a beleza está ali, oculta, e que serei capaz de reencontrá-la e de reconhecê-la ao amanhecer. Na manhã seguinte ou numa outra manhã qualquer.

não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais

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Nascemos filhos. E esperamos ser filhos para sempre. Mimados, educados, amados. Que nossos pais invistam doses cavalares de amor em todo nosso caminho pela vida. Que, quando a vida doer, haja um colo materno. Que quando a vida angustiar, encontremos neles um conselho sábio. E, quando isso nos falta, há sempre uma lacuna, um sentimento estranho de sermos exceção.

Mesmo adultos, esperamos reconhecer nossa meninice nos olhos dos nossos pais. Desejamos, intimamente, atenções miúdas, como a comida favorita no dia do aniversário ou a camiseta do time de futebol se estamos na casa deles.

Não estamos prontos para trocar de lugar nesta relação.

É difícil aceitar que nossos pais envelheçam. Entender que as pequenas limitações que começam a apresentar não é preguiça nem desdém. Que não é porque se esqueceram de dar o recado que não se importam com a nossa urgência. Que pedem para repetirmos a mesma frase porque não escutam mais tão bem – e às vezes, não está surdo o ouvido mas distraído o cérebro. Demora até aceitarmos que não são mais os mesmos – que dirá “super-heróis”? Não podemos dividir toda a nossa angústia e todos os nossos problemas porque, para eles, as proporções são ainda maiores e aí tudo se desregula: o ritmo cardíaco, a pressão, a taxa glicêmica, o equilíbrio emocional.

Vamos ficando um pouco cerimoniosos por amor. Tentando poupar-lhes do que é evitável. Então, sem querer, começamos a inverter os papéis de proteção. Passamos a tentar resguardar nossos pais dos abalos do mundo.

Dizemos que estamos bem, apesar da crise. Amenizamos o diagnóstico do pediatra para a infecção do neto parecer mais branda. Escondemos as incompreensões do casamento para parecer que construímos uma família eterna. Filtramos a angústia que pode ser passageira ao invés de dividir qualquer problema. Não precisam preocupar-se: estaremos bem no final do dia e no final das nossas vidas.

Mas, enquanto mudamos esses pequenos detalhes na nossa relação, ficamos um pouco órfãos. Mantemos os olhos abertos nas noites insones sem poder correr chorando para a cama dos pais. Escondemos deles o medo de perder o emprego, o cônjuge ou a casa para que não sofram sem necessidade e, aí, estamos sós nessa espera; não há colo nem bala nem cafuné para consolar-nos.

Quanto mais eles perdem memória, vigor, audição, mais sozinhos nos sentimos, sem compreender por que o inevitável aconteceu. Pode até surgir alguma revolta interior por esperar deles que reagissem ao envelhecimento do corpo, que lutassem mais a favor de si, sem percebermos, na nossa própria desorientação, que eles não têm a mesma consciência que nós, não têm como impedir a passagem do tempo ou que possuem, simplesmente, o direito de sentirem-se cansados.

Então pode chegar o dia em que nossos pais se transformem, de fato, em nossos filhos. Que precisemos lembrá-los de comer, de tomar o remédio ou de pagar uma conta. Que seja necessário conduzi-los nas ruas ou dar-lhes as mãos para que não caiam nas escadas. Que tenhamos que prepará-los e colocá-los na cama. Talvez até alimentá-los, levando o talher a sua boca.

E eles serão filhos piores porque lembrarão que são seus pais. Reagirão as suas primeiras investidas porque sabem que, no fundo, você acha que lhes deve obediência. Enfraquecerão seus primeiros argumentos e tentarão provar que ainda podem ser independentes, mesmo quando esse momento tiver passado, porque é difícil imaginarem-se sem o controle total das próprias rotinas. Mas cederão paulatinamente, quando a força física ou mental reduzir-se e puderem encontrar no seu amor por eles o equilíbrio para todas as mudanças que os assustam.

Não será fácil para você. Não é a lógica da vida. Mesmo que você seja pai, ninguém o preparou para ser pai dos seus pais. E se você não o é, terá que aprender as nuances desse papel para proteger aqueles que ama.

Mas, se puder, sorria diante dos comentários senis ou cante enquanto estiverem comendo juntos. Ouça aquela história contada tantas vezes como se fosse a primeira e faça perguntas como se tudo fosse inédito. E beije-os na testa com toda a ternura possível, como quando se coloca uma criança na cama, prometendo-lhe que, ao abrir os olhos na manhã seguinte, o mundo ainda estará lá, como antes, intocável, para ela brincar.

Porque se você chegou até aqui ao lado dos seus pais, com a porta aberta para interferir em suas vidas, foi porque tiveram um longo percurso de companheirismo. E propor-se a viver esse momento com toda a intensidade só demonstrará o quanto é grande a sua capacidade de amar e de retribuir o amor que a vida lhe ofereceu.

e se o homem que você amou for melhor agora, depois de você?

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Conforme-se: talvez ele seja melhor agora.

Com ela, toma cuidados que nunca teve antes: evita jogar as toalhas no chão da área, estica os lençóis sob o edredom, lava a cuba da pia pela manhã, apagando o rastro das escovações da véspera. Não reclama de lanche ao invés de jantar nem de jantar sem bife, sempre deita-se em tempo de pegá-la ainda acordada, cede ao amor quando ela quer.

Ele entende que ela está cansada do trabalho e quer descansar. Ele entende que ela está frustrada e precisa de carinho. Ele entende que ela não tem tempo e lembra-se de agradecer pelo tempo dela.

Acalme-se. Ele não faz de propósito. Não é para provocar você. Apenas sentiu o vazio do fim de uma relação, a sensação cortante do fracasso, e, sobrevivendo a isso, está tentando mais. Porque aprendeu que, passada a fase de flores, sexo e promessas, precisa estar ao lado dela de forma mais profunda. Escutar o que diz, abraçá-la quando tem medo, fazer planos para o futuro. E expor-se para ela.

Ele não imaginava o que seria não ter mais sua casa. Na casa dos pais, para onde voltou, sentiu-se estrangeiro. Alugando o apartamento do amigo, sentiu-se vivendo a vida de outro alguém. Não sabia que sentiria falta do barulho da geladeira ou dos estalos da estante para dormir tranquilo. Sozinho, entendeu o alto custo de perder a mulher que amava, arrependeu-se de fechar-lhe alternativas e sofreu ao saber que você não o absolveria mais de suas faltas nem o aceitaria de volta.

Por isso, não se sinta menos importante. Não é que ele a ame mais do que amou você. Na verdade, sabe que se esgotou o seu amor. E porque sentia falta das conversas que tinham, embriagados de sono no quarto apagado, soube que não queria dormir sozinho. Porque se lembrava das músicas que você cantava enquanto cozinhava, incomodou-se com o silêncio da casa. Foi por sentir o peso da sua ausência que precisou encontrar alguém em quem pudesse encostar o corpo ao fim dos dias ou que tivesse interesse nos problemas para os quais ele precisava de conselhos mansos.

E se vier a amá-la mais do que amou você? Aceite! Sabendo que lhe ensinou o caminho do amor. Que foi você quem lhe cobrou a contrapartida dos gestos de carinho e mostrou-lhe a importância da reciprocidade. Que foi seu sofrimento que mostrou a ele que deveria esforçar-se mais numa relação futura, porque deixar ao abandono a pessoa que amamos, fere-nos, também, profundamente.

Sim, pena que ele não aprendeu em tempo de vocês serem felizes. Mas seja grata pelas lições que você aprendeu com ele, pela clareza que isso lhe trouxe acerca daquilo que você quer e do que a faz, de fato, feliz. Se ele aprendeu a amar melhor, imagina você, que estava um passo à frente?

Então, se puder, alegre-se. Porque se ele se esforça agora, a sua dor não foi em vão. Triste seria se perdê-la não o tivesse modificado em nada.

imersa

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Saltou do ônibus dois pontos antes de chegar em casa porque queria ver, de perto, o mar.

Cansou-se de ficar presa no trânsito em direção ao previsível roteiro, somente como espectadora do movimento das ondas. Então desceu, tirou a sandália e caminhou até a arrebentação, deixando a água tocar a barra de sua calça.

Queria mergulhar. As ondas vinham em intervalos curtos, não lhe davam tempo para decidir se levava adiante a idéia ou apenas mantinha-se contemplativa. Naquele fim de tarde, poucos banhistas se arriscaram no mar.  Havia bandeiras vermelhas e sabia que, quanto mais avançasse, mais seria difícil resistir à força da correnteza e maior seria o medo de ser tragada.

Mas ela não deu à sinalização de perigo a mesma importância que deu ao seu desejo. A vontade era grande, arriscou-se. Na areia, presa num redemoinho mental, ganhava coragem, observando a paisagem: os espaços vazios na praia, o horizonte muito distante, o barulho do mar isolando os sons da cidade.

Ficou imóvel por um tempo, sentindo a areia fina, trazida pelo vento, arranhar a pele do seu rosto, ouvindo as conversas cortadas das pessoas que passavam ao lado, o trote dos corredores que, em sentido contrário, venciam a força do vento e encontravam resistência na areia molhada.

Voltou à parte seca, onde deixou a bolsa com os seus pertences: chaves de casa, dinheiro, documentos, maquiagem e celular. A bolsa era o seu universo minimizado, a essência das suas referências. Tudo o que continha precisava ser protegido da água. Deixou, também, as roupas e os sapatos, confiando que não haveria, na praia vazia, quem notasse que usava lingerie e não biquíni.

Jogou-se, então,  num mergulho  profundo. O mar era só silêncio, uma pressão surda a transportá-la para uma outra dimensão do seu dia.  Sob a superfície, movia as mãos no ar de um universo líquido.  O sol, filtrado pelas camadas de água e sal, abria-se em luz como um cristal, rasgando em raios o verde que a cercava.

Estava afundando. Mas sentia-se orbitando no universo, com seus gestos pesados e lentos.

Não havia qualquer som. As ondas eram o balanço sentido no corpo ou o volume de água aumentado sobre sua cabeça.  Não havia horizonte. Além das extremidades do seu corpo, só o verde escurecido do mar:  acima, abaixo, em volta de si. Ela flutuava na água, batia os pés sem conseguir alcançar o fundo. Mas não se assustava porque via subirem as bolhas de ar na direção da superfície. E porque a luz do sol lhe servia de bússola.

Mais fundo era mais frio. Arrepiou-se, tremeu, abraçou-se. Notou que a lingerie branca encharcada se tornara transparente, lembrando-lhe as águas-vivas. Riu-se disso e movia os braços como se dançasse, tentando imitar o movimento que o animal faria. Brincava com os cabelos tumultuados, que se espalhavam a critério das ondas que iam e vinham.

Por baixo delas, nadou em direção à praia, vencendo a correnteza forte, ainda maior quando as ondas voltavam. Ela não hesitava. Voltava à tona para respirar e mergulhava de novo, pensando que, se não conseguisse chegar ao raso, boiaria, deixaria levar-se, até que o mar lhe devolvesse ao mundo.

Saiu do mar com os seios e o sexo desenhados contra o algodão das peças que usava.  Saiu do mar como se nua estivesse – além do corpo exposto, a mente livre.

Na caminhada de volta, o oceano lhe escorria pelo corpo até tocar a onda que voltava e a puxava pelos pés. Cada passo que dava, contrário a essa força, assanhava a água ainda presa aos cabelos, que também escorria de volta ao mar. Quanto mais ganhava a areia na direção de seus objetos pessoais, mais rápido se perdiam os elementos que a uniram ao mar. E o vento e o sol contribuíam para o apagar das pistas.  Em vão.

Desligar-se da experiência seria um processo lento, só concluído após reassumir a rotina de casa. Até lá, ainda guardaria o sal sobre a pele e trançado aos cabelos até a hora do banho. Ainda assim, mesmo de madrugada, com os olhos fechados na cama, lembraria os sons do oceano e a calma vivida. Como se seu corpo fosse concha que, encostada à orelha, reproduz o som do mar só porque deixou-se invadir pela água.

Fundira-se com o mar. Aprendeu que, dosando-se essa entrega, dosa-se o risco e a profundidade com que se perde no abismo. Que a infinitude que sentiu, nunca poderia ser ignorada. Ainda lembra-se disso quando, em terra, também precisa vencer correntezas e chegar à tona para respirar.

maquiagem

É nas primeiras horas da manhã que seu equilíbrio mais se arrisca.

Saída do banho, os olhos ainda inchados de sono, a mulher passa um algodão umedecido em loção no rosto e obriga-se a despertar para os detalhes da fisionomia, antes de desenhar a maquiagem sobre a pele.

Neste momento, observa sua imagem refletida no espelho do banheiro, ainda levemente turva por causa dos vapores de calor no ar. Desliza o algodão sobre as pequenas rugas no canto do olho e as linhas mais marcadas sobre a testa. Nota alguns detalhes alterados mas, como ninguém os comentou, imagina-se, ainda, protegida de um diagnóstico definitivo. Afinal, ninguém se aproxima tanto dela quanto ela do espelho na hora de maquiar-se.

Todas as manhãs, ela se impõe o compromisso de estudar esses pequenos sinais, para que disfarce melhor a olheira sob o olhos ou para que os delineie e o olhar se levante ou o  rosto se ilumine.

Enquanto escolhe a base que cobrirá a pele com disfarces e colore as pálpebras com um tom quase da própria cor da pele, tenta criar a ilusão de uma nova casca sobre a antiga – como uma máscara sobre o próprio molde que não pareça máscara mas a bela e crua naturalidade.

Escultora da sua beleza, enquanto espalha os cosméticos sobre o corpo, sente-se, frequentemente, mais frágil diante da elasticidade modificada da derme. E percebe: algum vigor já se perdeu. O olhar atento e curioso disfarça os sinais mas não altera a marcha diária do tempo. Teme, um dia, não reconhecer-se na imagem espelhada.

Respira. Ainda não perdeu a beleza. Ainda não envelheceu de fato. Nem teme a solidão que, dizem, acompanha o apagar físico do corpo – ilude-se com a idéia de que a mente manterá acesa a alma, se o corpo enfraquecer.

Ainda assim, angustia-se todas as manhãs. No ambiente agora desembaçado, vê além do espelho. Enxerga sob seus traços os projetos ainda não realizados. A vida que existe além da sua capacidade de vivê-la. Perde-se, por um momento, na sensação de que, dali para frente, terá menos tempo – se não porque há limites de anos para viver-se, ao menos porque caminhará em passos cada vez mais lentos.

Esticando os cantos do rosto e virando-o de um lado para o outro para verificar os acertos da maquiagem, a pressão de viver mais do que já tenha vivido lhe aperta a garganta.

Mas sai do banheiro e apaga a luz. Mergulha em decisões mais fáceis. Escolhe um vestido que lhe marque a cintura e cujo decote lhe valorize, sutilmente, os seios. Através do espelho do armário, um pouco mais afastada da sua imagem, vê-se de corpo inteiro, checa o caimento da roupa e decide, por fim, se prende ou se solta os cabelos.

Sai de casa e envolve-se nas obrigações e nas risadas rotineiras. Esquece, por completo, a ansiedade da manhã. No fim do dia, limpa a pele, desconcentrada, com os olhos fixados na cena de novela. E dorme após desligar a TV.

Até que o despertador toque, o dia seguinte comece e ela reinicie seu pequeno ritual de embelezamento – banho, tônico, maquiagem –, sua mente repousa tranquila.

Entretanto, dia após dia, de frente para o mesmo espelho, sempre pensa como custou a ela notar a velocidade do tempo. E sempre conclui que, ironicamente, a juventude se vai perdendo nos momentos em que nos poupamos (e ao corpo) de viver.

Carnaval

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Percebi que o Carnaval tinha começado quando o bloco me alcançou na porta da empresa. E, na saída do trabalho, deixei passar aquela gente entusiasmada atrás da batucada. Parei sob uma marquise, um pouco irritado por estar na contramão do movimento.

Cercado por piratas e super-heróis, um ritmista de expressão fechada me chamou a atenção. Seus lábios contraídos e o ar concentrado sugeriam que era um operário daquela alegria, homem do compromisso, sem empolgação. Não seria irônico se ele, no centro da animação, estivesse contrariado, como eu no canto da rua? Pois não combinávamos com os foliões que passavam lançando confetes. Entretanto, ele não se furtava a uma participação significativa: balançava os ombros e garantia a marcação dos compassos. Unia todos numa mesma marcha, atraía para a rua as pessoas do entorno. Sua música se escutava até dentro dos prédios. Puxado pela curiosidade em relação a nossos papéis na folia, segui o cordão. Queria saber se conseguiria, como ele, unir minha vida àqueles passos.

Algumas esquinas à frente, abri a camisa, tirei as mãos do bolso e, experimentando uma leve euforia, aderi ao grupo, entoando a letra de um samba melancólico que se fantasiava de samba-arrastão nos dias de brincadeira.

A noite caiu. Transformou a rua comum em passarela. Os postes de luz acesos sobre minha cabeça pareciam holofotes. No asfalto, reluziam os pontinhos brilhantes disfarçados no concreto. Sobre o chão cintilante, depositava-se a purpurina caída dos corpos, das fantasias, dos arranjos de cabelo.

Era o mesmo chão que pisei durante a semana na ida para o trabalho. Que me trouxe de volta para casa em noites anteriores, servindo de testemunha às queixas divididas com o amigo. Como eram os mesmos os cruzamentos e as avenidas que atravessava rotineiramente, correndo para resolver os problemas comuns. Cada detalhe do caminho reconhecido por mim vestia nova roupagem, coberto de música, de cores e de sons que afrontavam a frieza do meu cotidiano de obrigações.

Misturei-me inteiramente ao cortejo de samba. Tirei a camisa e os sapatos e pus os pés no asfalto ainda quente.  Meus pés descalços abriram-se em pequenas feridas conforme a caminhada se alongou. Mas a tepidez do asfalto amortecia a pouca dor que eu ignorava, confundido pelo cheiro da cerveja e dos suores.

Aceitei a cerveja do estranho que me abraçou como amigo. Olhei a odalisca com desejo de beijar seu ventre. Rodei na minha cabeça fantasias que há tempos não me permitia. Ouvi juras a que não pude corresponder. Beijei a boca de uma mascarada. Senti meu suor escorrer pelas costas e pelos braços. A minha existência palpitava em mim.  Eu era a concretude do meu corpo, a mente despertada, a libido presente, as sensações libertas. Estava num estado breve de felicidade. Fui resgatado da apatia pelo que aquelas ruas despertaram em mim. A motivação parecia, como poeira, levantar do asfalto em que deixara meus passos de angústia e de alegria.

Algumas cervejas depois, misturei todas as vozes ao redor. Não me lembrei das letras nem consegui mais acompanhar a marcha. Perdi-me do ritmista que observava sem saber se ele sorrira em alguma canção.

Minha alegria era um sentimento muito próximo da paz. Meus próprios olhos, agora, faziam reluzir o mundo ao meu redor, cercavam as pessoas de aura, alongavam os raios dos faróis dos carros e refletiam as lâmpadas dos postes de luz.

Parei próximo à praia e andei até o mar. Com os pés na água salgada, senti arderem as feridas abertas no caminho percorrido. O mar feria e anestesiava, morno também àquela hora da noite. Recolhia-se em ondas e levava, devagar, o pouco de energia que ainda havia em mim. Quando a onda voltava, voltava a ardência e fazia o corpo reagir.

Deitei na areia sob o céu aberto de verão. Sorri. Enxerguei purpurinas onde, antes, só via estrelas. Iguais aos pontos de luz que havia no asfalto. Pensei que poderia escolher, todos os dias, entre caminhar sobre o chão ou sobre o céu.

Nada mais me aborrecia. Não quis voltar para casa. Seria andar noutra direção, em que não havia mar nem música nem cor nem brilho.

Deixassem-me ali até passar o Carnaval…

do que lembramos, afinal

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A vida não é o que se viveu,

mas sim o que se lembra,

e como se lembra de contar isso.”

(Gabriel García Márquez)

Voltando do trabalho e olhando, desantenada, as imagens que passavam em velocidade pela janela do ônibus, revelou-se a singela verdade: não eram os grandes gestos nem as maiores provas de amor que contavam no fim das contas mas o carinho contido nas pequenas provas involuntárias que oferecemos aos outros.

Mesmo tendo a mãe estado em vigília por noites inteiras, cuidando das doenças infantis, quando pensava no maior gesto amoroso da mãe, lembrava-se dela segurando sua mão febril e prometendo pintar-lhe as unhas quando voltassem do médico. Suas mãos pequenas confundidas com as mãos macias da mãe, o gesto morno no meio do dia, era a recordação que mais a emocionava.

Deduziu que os grandes feitos, às vezes, são os mais fáceis. Junta-se a dose suficiente de coragem para realizá-los e eles se realizam. Mas, sob a ilusão de que a emoção existirá para sempre à luz daquele acontecimento, negligenciam-se os dias. Mais à frente, o convívio descuidado traz a sensação de que o movimento que nos conectou talvez tenha-se perdido, pulsando mais vivas as horas de solidão.

Emocionou-se com os pensamentos que lhe vinham e percebeu que se esquecera do ponto em que deveria descer. Não se incomodou de andar por mais quadras porque estava comprometida com a pequena descoberta que a confortava.

Estava alegre quando desceu do ônibus. Despediu-se do motorista com um sorriso e enveredou pelas ruas por onde, antes, só passara dentro da condução. Seguiu, pensando que, quando experimentamos certas gentilezas nas miudezas da rotina, aí sim o amor nos invade com sua alegria arrasadora. Sorrimos, recordando as gargalhadas nascidas do que, hoje, é piada que já esquecemos. Ou como foi bom, simplesmente, estarmos acompanhados de uma amiga ou um namorado numa tarde comum, em que a atenção foi tanta e o sentimento foi tão calmo que estávamos protegidos por um afeto que, acreditávamos, não nos faltaria.

Diria ao amor que perdera, se pudesse, que o momento em que mais se sentira amada foi quando caminharam juntos numa noite de inverno como aquela. Só porque era frio e ele tirara suas luvas para que vestissem as mãos dela.

Concluiu, então, que nos esforçamos demais para sermos aceitos, quando bastam apenas a espontaneidade dos gestos de carinho. Porque o amor é simples e espontâneo. Mesmo quem não se apega a sentimentalidades ama, dando de comer e alimentando-se dessas migalhinhas. No fim, o que alimenta o amor é a massagem nos pés quando doem, é o aquecedor ligado quando o banho seria frio, é oferecer o melhor lado da calçada ou um abraço no fim do dia.

Do que sentimos falta, quando partem os que amamos, é de sua presença nos pequenos cantos da nossa rotina. É o que nos faz perceber a quantidade de coisas miúdas a que os associamos e que os torna parte não só da nossa história mas de nós mesmos.

Tudo lhe ocorrera no caminho de volta. E precisou parar no meio da rua para entender onde estava após todos os passos dados com a mente ocupada pelas idéias.

Prestou, então, atenção às casas que sempre via de longe e que, antes, eram imagens ligeiras em sua janela. Próxima, viu-lhes os detalhes da constituição. Eram quase iguais, tinham a mesma estrutura, variando-se, apenas, as cores, a textura e as fissuras das paredes e dos muros.

Riu-se. Porque ela se sabia, também, rica de detalhes como as casas, as ruas, suas lembranças ou os sentimentos que carregava. Sólida, apesar das ranhuras. Discreta, como se obedecesse a um padrão. Mas essencialmente única em suas cores verdadeiras e na resposta ao toque afetuoso.

E parecia possuir um amor modesto e uma recatada coragem de vivê-lo mas, observada de perto, ver-se-ia que era capaz da mais corajosa atitude: devotar-se, permanentemente, ao amor conquistado, aceitando-lhe as imperfeições e, ainda assim, admirando-lhe em sua forma.

Seguiu direto pela rua porque reconheceu onde estava e achou a direção de casa. Não precisava de companhia. Mas, se mais alguém descesse do ônibus, poderia acompanhar-lhe em segurança porque ela conhecia as esquinas em que não deveria dobrar. E, se o acompanhante fosse amigo, oferecer-lhe o cachecol como proteção seria suficiente para um bem-querer germinar pois, afinal entendeu, são as experiências ordinárias que ficam para sempre.