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Era vibrante a espera por sua chegada. Angustiante também.

Havia o desconforto por ocupar o corpo que sobrava um pouco na blusa, apertado pelo decote quadrado, as pernas roçando uma na outra enquanto caminhava até a porta. Estava mais velha, mais gorda, um pouco ofegante. Mais vivida.

Mesmo assim, arriscara-se, marcando o encontro após tanto tempo, tanta saudade e os anos seguidos sem comunicação.

Sentira uma grande alegria ao saber que se reveriam. Ressurgidas sensações de um passado alegre, com risos, críticas divertidas ao mundo, noites perdidas entre o sexo jovem e os sonhos futuros. Como numa regressão, encontrar-se-ia com uma outra vida que vivera.

No entanto, chegar um pouco mais cedo deu-lhe tempo para pensar. Devia ter escolhido melhor o local, talvez trazido algum presente… Pecou ao sair afobada e sem maquiagem. De tudo, a roupa fora o erro pior: mostrava muito do corpo fora de forma, a cor não lhe ressaltava os olhos castanhos nem a pele branca. Sentiu-se insegura mas permaneceu de pé na porta do restaurante porque “era mulher de palavra”, pensou, travestindo a insegurança com um gesto de mártir.

Tinham-se distanciado, casaram-se, eram pais e profissionais bem sucedidos. A vida fora boa para ambos. Normal, entretanto, que quisessem reencontrar-se. A saudade da juventude compartilhada os unia num vínculo muito pessoal. “Coisa da idade”, convencera-se, assim, a aceitar o convite e marcar o encontro. Convenceu também o marido de que almoçaria com um amigo de um passado morto, doce mas findo, e de que talvez sequer tivessem muito assunto, de que seria rápido e voltariam para suas casas com a curiosidade satisfeita e a nostalgia abrandada.

Mas, na verdade, fora ao encontro da sensação que temos quando falamos com os que nos reconhecem.

A espera, em pé, na entrada do restaurante, entretanto, estava sendo sufocante, cansativa, muito calor, as coxas um pouco assadas, as bochechas um pouco vermelhas e um vento quente a desalinhar-lhe os cabelos. Tentou domá-los com um elástico mas desistiu, soltando-os, porque havia os fios brancos aparecendo e não precisava de mais isso a preocupá-la.

Olhou para o celular na esperança de que houvesse uma ligação informando desistência, já estava muito sacrificada ali. Mas a caixa estava vazia, nenhuma ligação perdida, ela tinha que ficar.

Procurou em volta pelo amigo e pensou ela mesma em ligar e desistir. Sentir-se mal era desculpa válida. Mas havia aquela saudade dele e das lembranças que traria. Algo a impulsionava na direção do amigo que queria recuperar em sua vida, ainda que por um momento, pois guardava muito dela, inclusive partes que já jogara fora.

Pensou nele como uma referência de si própria. Só ele seria capaz de reconhecê-la nas ruas, mesmo com a alma desfigurada. Só ele enxergaria, sob os poucos sinais de envelhecimento, a mesma pele a vestir a alma risonha e alegre que se escondera nos últimos anos. O único a perguntar-lhe o que de verdade importava, os assuntos que já não conversava, as coisas de que nem se lembrava e eram tão importantes.

Olhou de novo o celular, ligeiramente trêmula. Se ele não viesse, ela estaria para sempre perdida.

Quase chorava quando, abruptamente, ele se aproximou e ela o abraçou, emocionada, por tudo.

Sentaram-se à mesa e rapidamente engrenaram em conversas mais fáceis sobre o trabalho, a casa, os cônjuges, os filhos, a crise financeira, o que viveram nos anos em que estiveram distantes.

Sobre o passado se detiveram com mais vagar.  Havia muitas lembranças. Trechos esquecidos que vinham pescados por outra recordação mais forte. A sensação de vida pulsante e bem aproveitada, ainda que, sabemos, há sempre algo de ruim de que se esquece quando resgatamos as memórias, mas que estava lá quando tudo ocorreu. Em sua memória, jamais voltara a ocupar cenário tão perfeito.

Falaram do tempo em que não adormeciam. Mantinham os olhos abertos até os dias amanhecerem, amavam-se com luzes acesas sobre os lençóis brancos da casa de praia, dançavam sob a lua num adorável clichê. Suas vidas estavam no foco, havia o mundo a contaminar com suas idéias e almas amorosas.

Ele assumiu a conversa porque nele ainda havia muito daquela alegria. Nele ainda havia uma chama evidente na retomada daquelas lembranças partilhadas, provocando risos leves e espontâneos.

Mas ela, ouvindo-o, estava paralisada. Como se estivesse deslocada do seu cenário. Como se o passado fosse a real história de sua vida e o seu presente, algum lugar a que lhe mandaram em exílio.

Frágil, diante do amigo, teve vontade de esconder-se. De certa forma, em silêncio e sob um sorriso, foi o que fez.

Perdera-se. Certa disso estava ao ouví-lo contar-lhe sobre como sua vida havia seguido sobre outros trilhos. Novo desconforto a atrapalhava. Medo de não ser identificada. De que, em algum momento, ele se levantasse da mesa achando que ali se sentara por engano, após confundí-la com pessoa muito parecida. Ela sequer tinha uma história para contar – apenas ensaiara alguns capítulos.

Ele notou o incômodo da amiga. E iluminou-lhe os olhos com outras narrativas do passado – apelidos dos amigos, trabalhos feitos sem responsabilidade, festas, músicas, viagens. Histórias das gargalhadas que deram juntos.

Pelo passado, ela navegava confortavelmente, somando lembranças, acendendo em sorrisos e palavras. Tocou-lhe os braços com cumplicidade, jogou o cabelo para trás, e falou animadamente, quase histérica.

Ele não lhe estranhou o comportamento, associando-o ao vinho que tomaram e ao calor que fazia. Até gostou daquela postura meio desregrada, como se fossem de novo os jovens de ontem – só ele a entenderia, só ela a entendê-lo.

Lembrou-lhe, sem culpa, dos dias em que se amaram, trançando pernas e línguas, ele a lamber-lhe os seios numa obsessão adolescente. Gabou-se da forma como transformaram, com maestria, tesão em amizade, apesar de tão jovens.

Ela continuava a sorrir. Mas desconcertou-se diante da lembrança da língua úmida sobre sua pele. Alguma coisa foi desmoronando dentro dela. Nunca mais fora tocada com aquela paixão desperdiçada no passado. Nunca mais fora capaz de sentir tanta paixão. Tornara-se uma mulher sem impulsos que, muitas vezes, não se refletia no espelho.

Chocou-se com a constatação e fez força para respirar e para manter-se sentada diante dele, sabendo que, em tempo integral, fingia sua realidade. Ela não estava ali. Pior era nem saber onde estava, onde deixara a alma que devia habitar aquela casca.

Ele precisou voltar ao trabalho, já extrapolara o horário de almoço.

Aceitou, com alívio, despedir-se dele num abraço longo e íntimo, prometendo-lhe manter o contato.

Acendeu um cigarro e foi para casa, caminhando lentamente, sem voltar-se para acenar quando o carro dele arrancou no estacionamento.

Uma fraude, sentia-se. Representava com eficiência as personagens que assumira na vida – mãe, mulher, funcionária – mas não era, de fato, nenhuma daquelas mulheres, que anularam por anos seguidos a essência do que a tornaria real. E não era mais a mulher de que falaram a tarde inteira com admiração. Como também não se tornou a evolução daquela mulher, da qual se perdera, sem notar, em algum momento da vida.

Ainda seria jovem se possuísse paixão pela vida.

Ainda seria feliz se tivesse esperança.

Ainda se iluminaria se fosse capaz de amar a casa, o trabalho ou as pessoas que a cercavam.

No entanto, vagava de volta como um mero rascunho de sua vida, consumindo-se em fumo e apatia. Sem vontade de chorar nem de sorrir.