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Encontraram-se na praia.

Após mergulhar no mar, a água lhe escorria pelo corpo moreno e pelos cabelos encaracolados. Passou as mãos no rosto, os dedos pelos cachos e sorriu, desviando da criança que a onda derrubou e trouxe em sua direção. Para ela, que o assistia da areia, seus movimentos eram únicos. O homem se destacara na paisagem da praia lotada, atravessando o mar sem perder-se nele, a alma leve, o corpo, barreira às investidas das ondas.

Ela sempre tivera medo do mar. Gastava muito tempo à margem, molhando os pés e acostumando-se à temperatura e à força da água. Quando se enchia de coragem, mergulhava a cabeça rapidamente e saía correndo, com medo da próxima onda alcançá-la. Ele não. Caminhava distraído em direção à areia, ignorando as ondas seguintes que lhe espreitavam à pequena distância e vencia com facilidade o barranco que a maré formara, projetando o corpo mais à frente, revelando-se ainda mais atraente de perto.

Estava sob a barraca, protegida do sol, quando ele se sentou na areia próximo a ela. Seus olhos percorreram toda a linha de suas costas.  Ela viu o vento agitar-lhe a ponta dos cachos e quis puxar um assunto, qualquer assunto, era Carnaval, havia muitos temas iminentes.

Passou por ele na direção das ondas enquanto ganhava tempo. Repetiu seu lento ritual à beira mar, mergulhando sem entregar-se à água, e voltou à areia. Sacudiu os cabelos ainda em pé, respingando no jornal que ele lia para, então, pedir-lhe desculpas e, na sequência, comentar da banda que passaria à tarde e atrapalharia o trânsito de volta à casa. Em alguns minutos, cada um já sabia em que bairro o outro morava, os programas que fariam no feriado e quanto pareciam desejáveis ao outro.

Foi ela quem o convidou a seguir a banda depois da praia. Foi ele quem a chamou para um chope depois da banda. Foi na cama dele que treparam depois de ela se convidar para num outro dia – que seria aquele dia mesmo – assistir ao desfile das escolas pela TV, enquanto ironizariam os comentários do apresentador.

No início da madrugada, exausta do mar, do samba e do sexo, foi até a janela do quarto do amante que dormia, deixando-se hipnotizar pelo som das ondas indo e vindo ao longe. Observando o movimento tímido dos morcegos que voavam mais abaixo entre as árvores frutíferas da rua, perdeu-se quase uma hora, a mente esvaziada, os olhos pesando na noite progressivamente silenciosa.

O homem deitado na cama, no seu ressonar, atraiu-lhe de novo a atenção. Decorou-lhe a silhueta desenhada pela claridade dos faróis que passavam na rua para guardá-la indefinidamente na lembrança e, então, poder pensar nele não como um desconhecido. Tinha na parede uma réplica barata de um quadro de Picasso cujos detalhes ela não conseguiu identificar. Nas prateleiras da estante, livros de cinema e estatuetas artesanais – figuras desconhecidas e um inconfundível Dom Quixote. À cabeceira da cama, um par de óculos denunciava uma pequena imperfeição física, tão boba que não merecia registro. Descobrira assuntos afins a serem conversados: também ela gostava de Chaplin (vira o DVD ao lado do televisor) e dos Paralamas (o primeiro CD no carrossel da aparelhagem que não chegaram a ligar).

Mas por julgar-se apenas uma garota comum, vinda da praia, ainda suja de areia, purpurina e suór, de quem não se tem muito a contar, arrumou-se para sair. Vestiu a camiseta dele sobre suas roupas de praia pois esfriara. Escreveu-lhe um bilhete prometendo devolvê-la um dia. Deixou nos lençóis o cheiro do seu sexo e, nos travesseiros, um perfume de lavanda, do creme de pentear. No sofá, o pregador e o resto da caixa de Mentos. 

Foi embora. Sem que mais se soubesse sobre ela. Antes mesmo que a pudesse amar.