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Ele a beijara de surpresa e, por isso, não lhe dera tempo de lavar as mãos sujas de tomate. Emprestou-lhe seu cheiro fresco, a pele ainda úmida e quente do banho, mas retribuíra-lhe o carinho com a boca distraída, preocupando-se demais com as mãos sujas e com a nódoa que não saberia tirar da camisa e para onde virara a ponta da faca com que preparava a salada.

Ele saiu do beijo sorrindo e a abraçou como se vivessem o momento seguinte ao da realização de um sonho esperado. Ela estranhando tudo, tanta coisa na cabeça, foi ficando ansiosa e irritada no meio do abraço longo, a faca ainda apontada de forma perigosa, as coisas por fazer.

Voltou às tarefas com um sorriso estratégico, justificando sua pressa e encadeando uma conversa sem importância para parecer confortável quando, na verdade, sentira-se quase agredida naquela inesperada interrupção amorosa. Pôs à mesa os tomates sem sementes na salada colorida e tirou do forno a lasanha que espumava queijo e molho. Naquele abraço quase perdera o ponto do jantar que preparara com esmero.

Jantaram, então. A casa ficou silenciosa e tranqüila, enquanto mastigavam a lasanha e as palavras sobre o dia que viveram.

Ele desligou a TV e sentou-se para ler o jornal enquanto ela guardava comida, louça, roupas da corda.

Foi então que lhe ocorreu a idéia de se amarem. O cheiro do xampu dela se prolongara em seus sentidos, o encaixe perfeito na hora do abraço, uma alegria que ele sentira subitamente… A idéia lhe deixou precipitado e correu à cozinha para ajudá-la a concluir as tarefas, em silêncio. E, ao vê-la preparando-se para deitar-se, fantasiou a noite que teriam, animando-se a ponto de atropelá-la em seu ritual. Avançou sobre ela. Delicada mas firmemente.

Ela, entretanto, pulou como uma presa assustada, reagindo ao toque íntimo daquele homem. Há muito já se esquecera do cheiro do marido, do impacto de sua presença e, de repente, sentira-se obrigada a despertar para uma vida já esquecida, ele lhe lançando sobre o colo todas as informações que lhe custou apagar. Afastar-se fora muito duro – disso, ela se lembrava. Em seu olhar surgiu uma expressão que o cortou, de não reconhecimento, como aquela que há nos olhos senis das pessoas a que amamos e nos lança a uma solidão repentina.

Ele congelou. Pela primeira vez, ensaiou somar os dias, meses, anos de afastamento num cálculo que de tão veloz ficou embaralhado e impreciso. Ainda assim, paralisou seus movimentos.

Esquecera-se da distância que tomara e do cheiro outrora insosso da mulher, da sua voz monocórdia que o cansara tanto, tanto, a ponto de sequer escutá-la. Esquecera-se do espaço criado entre os dois e de que se acostumara a montar mulheres mais selvagens, que pouco falavam, gritavam mais, trazendo-lhe a sensação fresca de despertar sempre que as encontrava. Com ela, vivera só da delicadeza cadencial, que fazia os dias se repetirem tantas vezes até beirarem o insuportável cair da noite.

Esquecera-se de tudo enquanto não se desvencilhava do perfume que sentira, naquela noite, no corpo que abraçara o seu.

No meio daquele silêncio que só engrandecia dentro do banheiro sem ecos, sentiu-se só e pequeno e desorientado. Mas disse “boa noite”, como se despedir-se fosse o plano inicial para, após, deitar-se e roncar desmaiado sobre os travesseiros que atrapalhariam o movimento dela na cama. Ela respondeu “Deus o abençoe” como uma boa mulher responderia e sorriu, afastando as linhas que haviam desenhado em sua face a expressão de susto.

Ele se deitou, humilhado, pela rejeição tão evidente. 

Ela dormiu, sentindo a camisola roçar-lhe prazerosamente a pele, dignificada em sua medíocre existência.