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Sentia o cansaço da noite mal dormida somar-se ao calor acentuado pelo paletó com que cobrira o corpo ressentido. Doía-lhe o pescoço. A dor se ramificava à coluna, emprestando ao corpo uma sensação de surra que lhe tolhia os movimentos e obrigava-o a submeter-se a um ritmo que não era capaz de alterar. Difícil caminhar até o prédio em que lhe esperavam os problemas do trabalho, o café amargo da copeira e a mesma irritante conversa dos colegas. Costumava divertir-se com tudo, ser peça referencial daquele ambiente, mas hoje preferiria sentar-se incógnito. Melhor que o dia apenas passasse por ele.

Nunca se lembrava dela quando estava lá, mas, como lhe estragara a noite passada num gesto espontâneo e negativo, arrastara a imagem dela no seu início início de dia. A amarga lembrança dela lhe rejeitando os carinhos… Sabia que a mulher não lhe roubara nada que já não tivessem, mas asfixiava-lhe a sensação de sua desimportância na vida dela. Fora dispensado e não se culpava – que culpa temos por desapegar-nos do que não nos traz felicidade? Tentava afastar o peso que sentia com pensamentos generosos sobre si mas, de novo, recaíam-lhe sobre os ombros todas as incertezas que conheceu na noite anterior. Perdera o controle sobre a situação que se criara e isto o assustava.

Durante os últimos anos, quando seus caminhos mudaram, esteve seguro por dominar o ritmo de suas vidas. A ilusória segurança de que poderia prever do que seriam capazes ele e a mulher o manteve confortável na relação. Tomou decisões racionais, unilaterais, fincadas no que sua união lhe oferecia. Achava-se o gestor da relação que, convencera-se, era muito boa, sólida, ele estaria sempre ali, a mulher também, já que, inclusive, cessaram-se os lamentos. Companheiros de uma vida inteira seriam, cúmplices naqueles acordos tácitos estabelecidos, primeiro com algum constrangimento mas depois, acreditava, com a aceitação de ambas as partes. E agora? Com apenas um movimento, ela o deslocou para o desconhecido.

Entrou na sala onde passaria as próximas horas em silêncio forçado. Não lhe escapariam palavras que o denunciassem, sob as quais poderia macular a imagem de felicidade perfeita. Mas não parara de pensar nela. Com raiva. Com amor. Solidário. Agora conhecia a dor a que a submetera por tanto tempo e diminuía-se diante dela, frágil e ferido. Aquela era uma dor que dominava e destruía, perde-se muito de si ao lidar com ela.

Enxugou o suór e sorriu nervoso à copeira que lhe trouxe um café.

Descoberta sua presença ali, era inevitável expor-se. Queria apenas deixar-se sobre a cadeira do computador, hipnotizado pela tela e dedicado ao trabalho, mas começou a ser interrompido e viu-se obrigado a interagir. Recolhido em seu corpo, como usando uma roupa de manequim menor, tudo era incômodo e seus gestos, estudados. Um movimento brusco e rasgaria a capa que vestia sua alma. Era preciso cuidado. Gastaria o dia preocupado com este equilíbrio de si pois era necessário sobreviver e voltar à casa para encaixar-se. Desmontado em peças que não conhecia, experimentava um desconforto cada vez maior. Poucas horas haviam passado e já estava exausto e irritado. Sentia-se castigado por atravessar o dia inteiro nesse exercício de sustentação do corpo e da mente, sem garantias de que perto do final não ruiria. Mergulhou em seu trabalho, a única coisa, no dia, que ocupava o mesmo lugar na vida que se alterara, para, então, parar de pensar nela…

…que, salva entre as paredes que guardavam o que não se deixava transparecer, ainda não saíra de casa.

Levantara-se diferente e maior. Seus movimentos se espalhavam pelos cômodos de forma firme e precisa. Estava focada e feliz. Não havia motivos – o que acontecera fora estranho e grave. E triste. Mas estava desperta e, após banhar-se, contornou os lábios com um batom pouco cintilante, que lhe ressaltava a luminosidade do rosto, molhando-os com gloss. Não queria ser reconhecida em sua sensualidade discretamente exposta, mas sentir-se assim a preenchia, a ela que vivera oca.

O desacerto da véspera pareceu acomodado entre as luzes apagadas e o silêncio do quarto. Entretanto, no olhar do marido, mais cedo, vira as sombras do que ocorrera. Sabia que seu gesto desencadeara aflição. Ainda assim, não se sentia mal. Sentia somente pena de ambos, lançados à vida sem proteção, machucados, sobreviventes à dor do desencontro.

E, como em todas as manhãs, perdoou-se.

Como nas noites em que desejou companhia e imaginou-se vivendo outras histórias. Quando amá-lo, mesmo em suas fantasias, era triste e doído e remetia aos gestos preguiçosos e estéreis que desembocavam no beijo frio de boa-noite, sobrevivia da fantasia com um outro homem, no início cheia de culpas, depois com uma liberdade imensa, atuando em sua cama de sonhos como a amante desejada a quem se diziam as palavras certas, a quem alguém se dedicava com amor e virilidade. Após, jogada de volta à realidade, recolhia-se em sua fraqueza. Contornava no ar o corpo adormecido do marido, sem que pudesse tocá-lo de fato, mas desejando-o tão intensamente que se sentia miserável.

Perdoara-se, também, por suas imperfeições, que reduziram as referências sobre si própria a um arquivo muito pequeno, muito confuso, expondo-a sem proteção à inquietação de seus pensamentos e ao medo de mover-se, agir, viver enfim.

Especificamente hoje, perdoou-se pela fina alegria de renascer quando, de certo, esperariam dela o luto conveniente. Não havia nela nenhum sentimento pequeno, nem de vingança. Foi tomada até por certa compaixão. Mas também, não havia como evitar, pela alegria da descoberta. Estava simplesmente feliz. Não havia esperança futura. Não havia o acontecimento esperado. Nem a concretização de algum desejo. Muito pelo contrário. Mas é fácil amanhecer feliz quando justamente não se possui mais esperanças nem sonhos nem projetos. Fácil cobrir a cara com uma maquiagem quase da mesma cor da pele e, ainda assim, estranhar-se mais bonita.

Olhando em volta, via o sol ultrapassar os vidros e ocupar metade dos cômodos. Não fechou as cortinas como de praxe. Aquela luminosidade compunha a vida que se percebia nos gestos, nos pensamentos e no corpo dela. Largamente.

Estava pronta para sair.

Olhando a casa que deixaria para trás, tão clara e silenciosa, o perfume do sabonete usado no banho alcançando o corredor, reconhecia-se. Tudo ali era seu. Desligada daquele cenário há tanto tempo, emocionou-se. Tudo era seu! Reviu em cada pequena coisa os mesmos detalhes presentes em outra época. Os mesmos desenhos de sombra e luz surgiam àquela hora da manhã sobre a rocha em frente a sua janela. A mesma trilha de poeira que se movimentava no ar revelada pelos raios que passavam pelas venezianas. O brilho ofuscante dos cristais sobre a mesa de vidro no centro da sala, que a claridade ultrapassava até atingir o tapete antigo que nunca fora trocado.

Sua casa, sua sala, o ar que respirava. Tudo se mantivera ali. Desaprendera a notar o mundo que a cercava e, com isso, deixara de amar os lugares que habitava, como se deles lhes tivessem sido retirados os tais detalhes que os diferenciavam do mundo dos outros. Mas que estiveram lá todo o tempo. O mais perturbador foi concluir que o único objeto realmente retirado daquela cena foi ela. Ela não vivia mais ali há algum tempo.

Entretanto, na noite anterior, reapareceu. Subitamente. Às custas do embaraço do marido e sob sua própria perplexidade, ela reapareceu.

Sim, sentia-se melhor agora porque as coisas tinham ainda mais nexo. Já sequer lamentava ter sido abandonada ou alvejada pelo olhar dele naquela manhã. Por anos, viveu como um espectro, afastada da beleza do seu mundo, e atravessou sozinha noites de pesadelo e solidão. Mas sobreviveu. Não sentia raiva alguma e desobrigara-se de sentir culpa.

Por isso, arriscara-se ao amanhecer. Ultrapassou a porta para reencontrar o mundo de que se perdera há algum tempo. Ou descobrir um novo mundo em que coubesse sua alegria.