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Eram duas as palavras até a noite com ele: “Eu vou!”. Abririam portas. Mas não podia dizê-las, pega de surpresa no meio do dia, o filho pela mão uniformizado para a escola. Duas palavras apenas. Tinha plena consciência disso. Ainda assim, segurou-as na boca, embora a mente lhe precipitasse a resposta imediata.

Quando ele desligou, contornando o constrangimento diante do silêncio, não prometeu retornar a ligação. O convite foi um passo a ser completado pelo movimento seguinte dela, como numa dança. Mas ela nada decidira, arrastando pelo resto do dia pensamentos que ruminavam em sua mente, prós, contras, e os filhos barulhentos no banco de trás do carro a deixando mais perturbada, já atrasados para a escola.

Entrando no grande prédio do colégio, soltou os garotos entre as crianças que, excitadas, ensaiavam jocosamente o número da apresentação a que fora assistir. As vozes finas embaralhadas ecoavam no auditório ainda vazio, misturadas com os risos de si, felizes e soltas da responsabilidade que tentavam impor-lhes. Ela se sentou a observá-las naquela alegria distraída, com os pensamentos afastados dali, vacilante entre aceitar o convite ou recusá-lo educadamente, talvez acenando outra possibilidade futura.

Sentia-se estúpida naquele dilema quase adolescente, era uma mulher decidida que tomara nas mãos as rédeas da própria vida. Mas sabia que em jogo havia mais do que o cinema no fim de noite. Aceitar o convite era pisar o primeiro degrau de uma escada para o porão que ainda não arrumara, onde havia as coisas que jogara fora em nome da vida que, após abraçar, quase jogou fora também. E era preciso pô-las em ordem, de uma vez por todas, antes de trilhar qualquer caminho. Aceitar o convite era afastar-se definitivamente, sem chance de retorno à casa que dividira por tantos anos com o homem que amara.

Mas que a fechara à chave. Para que comungassem agora daquele mesmo espaço, era necessário um sinal seu e a concordância dele. Ela, então, transitava com cerimônia entre seus cenários, com medo de fazer quebrar as peças que não podia nem saberia repor. Separaram-se nos dias em que a casa precisou ser reformada e, à distância, respirava uma liberdade com que se desacostumara e que a assustava, trazendo situações novas de uma vida que havia num mundo paralelo, em que soava espontânea e fazia-se notar. Longe do marido apenas circunstancialmente, via-se obrigada a lidar com o assédio desse novo mundo, quase sempre de forma desengonçada e aflitiva.

Angustiou-se quando percebeu que, desligando-se por um momento, perdera um dos filhos entre as crianças espalhadas indisciplinadamente pelo pátio. Irritada, foi ao encontro do menino, trazendo-o pela mão e sentando-o em seu colo. Envolvendo o outro filho com o braço direito, controlou-os. Seus corpos pequenos e mornos naquele momento de aconchego e proteção também lhe remetiam ao conforto das cobertas e cheiros conhecidos da sua casa. Ela os apertou mais, com medo de que a alegria lhes escapasse por culpa daquela mãe tão titubeante. Justo ela, que se incumbira da felicidade dos filhos, seria capaz de sacrificá-la em nome da sua própria? Justo ela, sua referência de força, seria capaz de ceder aos obstáculos que já não queria transpor?

O marido derrubou a casa. Ninguém o criticou. Trocou a cor das paredes sem consultá-la, cobriu de pátina o armário do quarto e desmontou a cama sobre a qual encenou tão profundamente atos de amor, colocando-a atrás da porta de serviço. E não fora capaz de entender seu aborrecimento nos dias que se seguiram, em que tirou dela seu lar. Ela o perdoara, aparentemente, pelas noites tristes e os anos em silêncio. Mas não conseguia perdoá-lo pelas mudanças na casa através das quais se materializavam palavras nunca ditas e alguma coisa do que lhe fora sonegado, cobrindo-se com tintas novas antigas marcas, já desbotadas mas ainda fragilmente existentes, impressas nas paredes dos cômodos. Difícil perdoá-lo pelo vazio por perder a única referência do que lhe sobrara de ambos: o lar construído – imperfeito, mas abrigo.

A casa fora tão abundante de tudo que é mister na vida que houve época em que sonharam estendê-la a outros espaços. Mais uma casa, talvez, à beira da praia, onde se amariam sobre lençóis claros de algodão, cobertos de sal, com as janelas abertas, enquanto os filhos catariam conchas e experimentariam a areia com seus pés descalços. Suas presenças, com toda a força que delas emanaria, se espalhariam entre rocha e mato, praia e sol, e seriam ao mundo exemplo de felicidade. O sonho, porém, em sua delicada arrogância, nunca se concretizara e, nos últimos tempos, a casa se reduzira ao que sempre fora aos olhos de qualquer desavisado: um apartamento pequeno de dois quartos cujas paredes estavam temporariamente desmanchadas.

Lembrando-se, apertou os filhos com mais ternura. Eles, materialização do amor vivido, sonhos concretizados, eram também abstração em sua parte incorpórea. As crianças geradas eram fundamentalmente mutáveis e imprevisíveis: almas, ânimos, índoles, pensamentos. Se os soltasse, com certeza, eles se lançariam à súcia com prazer e à revelia da mãe.

E pensar que seu mundo sempre lhe pareceu tão perene…

Diante de tantas inquietações, respondeu por um torpedo que não iria ao encontro do amigo. Não queria. A apresentação acabaria tarde e ela ainda pretendia alongar o programa com uma ida à lanchonete, talvez chamar o marido para encontrá-los e, quem sabe, visitarem a obra. A falta da casa era necessidade mais urgente, por isso desprendeu-se do encontro com uma facilidade repentina, sem qualquer amarra com o mundo que lhe chamava mas não lhe podia seduzir com nenhuma alusão tão forte quanto o cenário em que abrigou sua história. Não se arriscaria a cinemas, histórias ou escadas. Já estava machucada demais, partida em espírito, casas e relações. A negativa devolveu-lhe a paz para prosseguir no dia e o alívio pela possibilidade de voltar à casa ainda livre de um destino.

Após a apresentação, saiu leve e aberta a sorrisos, dividindo-se em simpatia com outras mães. Voltou ao hotel em que se hospedara, que era lugar nenhum – apenas trânsito entre seu passado e seu futuro. Lá, antes de prosseguir no programa que arrumara para a noite que se iniciava, viu-se em dúvida entre arrancar ou regar suas raízes, convidando ou não o marido para estar com eles.

Parada no limiar entre seus destinos, não conseguia optar, inerte, sem certezas, sem ensaiar passos na direção da decisão a tomar. No entanto, sabia-se a caminho de algum lugar, mesmo involuntariamente. Não o temia, pois suas emoções repousavam. Ainda assim, sofreu em silêncio por suas incertezas no longo minuto que antecedeu ao telefonema ao marido.