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A maçaneta da porta saíra em sua mão, já quase na hora de Ronaldo chegar. Arrumara em tempo a casa e, especialmente, o quarto para a noite do aniversário que passariam juntos. Quando viu-se trancada do lado de fora do quarto, quase entrou em pânico. A cama fora arrumada com o lençol preferido, havia cheiros novos espalhados pelo aromatizador e a luz, em tom estudado, revelaria o suficiente para que também pudessem imaginar-se.

A roupa dela ficara sobre a cama, detalhe importante para que se sentisse sensualmente segura, planejado nos dias de caminhada cansativa pelo shopping. Quase pronta, faltava-lhe agora a roupa trancada no espaço criado com tanto esmero. Segurava a maçaneta da porta atônita, incapaz de pensar numa solução que não sacrificasse tudo o que já preparara em si: o banho tomado, a maquiagem feita, o cabelo arrumado, o cheiro bom do óleo na pele. Tudo parecia fazê-la suar, descabelar-se, sujar-se, aumentando os problemas que tinha. Ronaldo chegaria e a encontraria desmazelada, diante da porta, pelo lado de fora do mundo que criara.

Ocorreu-lhe, então, num momento de calma, chamar o servente para ajudar-lhe na tarefa de conserto ou arrombamento da porta. Aguardando sua chegada, ela recuperou o fôlego e o controle da situação, como se lidasse com riscos e não com futilidades.

O homem entrou pela sua casa com uma chave de fenda, apenas. Com facilidade, destravou a porta, arroxou um gatilho no lugar da maçaneta que quebrara e devolveu-lhe o dia e a alegria da comemoração.

Foi rápido.

Antes de partir, no entanto, pediu-lhe um copo de água, que ela lhe serviria alegremente, tamanha a gratidão que sentia. Desconhecendo os protocolos que se seguiam naquela casa, o servente limpou o suór da testa e sentou-se um instante sobre a cama do quarto enquanto a esperava.

Pela primeira vez, ela o notou. Ele era um homem franzino e baixo, de olhos pequenos e claros. A aparência humilde dava-lhe, também, a impressão de humildade de alma. Tinha a pele ressecada, mais envelhecida do que o normal para sua idade, rugas que sugeriam uma história de vida e de luta, embora sorrisse levemente. Ela se enterneceu por sua figura e lhe invejou a facilidade do sorriso, por isso não reclamou de ele ter sujado os lençóis, sem querer, com o uniforme da faxina.

Na verdade, intimamente, envergonhou-se de todo seu desespero, de como deixara a ansiedade dominá-la, fazendo-a alegar urgência em sua presença, Diante daquele homem, brotava a incontestável idiotice de seus projetos. Ele destoava gritantemente do ambiente criado para os jogos que desnorteariam o homem que amava. Ela se ofereceria naquele cenário artificialmente montado, desejando uma relação verdadeira. Julgava ser preciso preparo para lá estar. Demorara um tempo ensaiando gestos e falas, estudando previamente cores e posturas. No entanto, ignorando os rituais que ela imaginara, o homem sentara-se, simplesmente, sobre a cama arrumada, expressando seu cansaço e seu bom-humor, sem sentir-se deslocado.

Imaginava se ele teria um jeito próprio de expressar-se. “Claro que sim”, dizia-se, envergonhada do velado preconceito presente em sua dúvida. Mas a que altura iriam seus sonhos? Quanto se permitia amar e refletir sobre o amor? Que cenários ocupavam seus desejos? Invejava-o. Pudesse, receberia Ronaldo com a camisola surrada que melhor lhe servia para dormir. Ou caminharia descalça pelas ruas, com o vestido solto e os cabelos despenteados, igual a quando, menina, ganhava o mundo atravessando a porta de casa para brincar.

Suas preocupações a distanciaram dos sentimentos que libertam. Transformara seu amor num artigo de luxo quando, na verdade, ele deveria brotar da simplicidade. O homem tinha olhos calmos e, sim, era amoroso, podia ver-se. Afastando sua emoção do que era real, afastara-se ela própria da realidade e agora estava embaraçada entre as paredes do quarto, portando-se de forma desajeitada, sem saber se sorria ao homem no prazer da sua presença ou se o expulsava, com delicadeza, para retomar seu plano inicial e abraçar sua vida de expectativas. Enxergando ternura nos olhos dele, concluía que amar era algo essencialmente simples, uma resposta às necessidades primeiras de qualquer ser humano. Ela, que tudo complicara, pelo amor sempre lutara contra sua natureza e, paradoxalmente, pelo direito a ela. Travestida de sua complexidade, no fundo, queria a mesma coisa que qualquer ser humano. Feita da mesma matéria, diminuída por sua carência e suas necessidades viscerais e fisiológicas.

Deixou de sentir-se grata e passou a incomodar-se com a presença daquele homem que, de repente, a confundiu a ponto de revelar-se fútil, quase ridícula, perdida. Logo ela, que de tudo sabia, surpreendera-se consigo.

Mesmo depois que ele partiu, inocente do que provocara, ela já não conseguia ficar no quarto sem sentir-se estranha e insegura em suas opções. O lençol sobre a cama, para quê? O aromatizador, incomodamente alterando o cheiro de madeira do quarto, que a fazia reconhecer, naturalmente, o cheiro da casa que a abrigava, para quê? As luzes e cores escolhidas, meu Deus, para quê?

Ronaldo pareceu-lhe atrapalhar o dia quando entrou, pontual, pela casa adentro. Jogou-a ao incômodo de ter horários e estar atrasada, ter rituais a cumprir e estar cansada. Ronaldo pareceu-lhe atrapalhar a vida, numa análise mais profunda de todos os seus desconfortos. Não poderiam simplesmente amar-se? “Vem comigo? Sim!” Pronto. Não poderia ser assim, sem a perturbadora análise dos espaços que podem ou não ser ocupados, sem questionamentos sobre a tempestivade dos gestos, dos passos, dos assuntos?

Sentada na cama, pés no chão, recebeu Ronaldo, desculpando-se pelo atraso. Ele riu bobamente de sua atrapalhação e supôs que seu incômodo ocorrera por ver frustrada a realização perfeita do que planejara para o dia. Ainda assim, vangloriou-se, intimamente, por provocar toda aquela movimentação e ficou sinceramente feliz em sua vaidade.

Ela ainda segurava nas mãos a maçaneta quebrada e não se esforçava em repor nos olhos a alegria que o momento merecia. Abatida, voltou ao roteiro que escrevera, acabando de arrumar-se para iniciarem a noite. No dia seguinte, chamaria alguém para consertar definitivamente a porta. Que não lhe pedisse água, não lhe suasse os lençóis e nem lhe fizesse chorar.