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Eles se despediram na tela de plasma. Apaixonados. A mão dele escorreu por todo o casaco dela no beijo final. Maria notou. Como notara vários detalhes por que outros passariam distraídos: a intensidade do olhar da protagonista antes da declaração de amor, o sorriso no rosto da criança no fundo da cena, enquanto o galã se aproximava. Detalhes dando a frações de segundo uma enorme significância.

O marido saíra para comprar o lanche noturno. Deixara-a na sala, assistindo à TV, driblando o silêncio. Ela não se envolvia com as tramas. Esvaziada de sensações, assistia ao carrossel de imagens frias sem que nenhuma despertasse, de fato, profunda curiosidade.

Entretanto, no momento em que o filme acabou, Maria permanecera imóvel no sofá da sala, os olhos fixos na tela, vazios em expressão, hipnotizados pelo beijo final. Lembrara-lhe o beijo apaixonado na porta do prédio anos antes. Cláudio também deslizara a mão em suas costas, trazendo-a para junto de si e aumentando a intensidade do beijo. Rendeu-lhe um convite para subir ao apartamento. Ela se recordara nitidamente da presença dele em sua sala. Não estava acostumada a visitas, passavam-se longos meses sem que mais alguém entrasse em casa. Cláudio ornava bem com os sofás claros e os detalhes dourados das estatuetas sobre o aparador. Era bom vê-lo parado no meio do living com um sorriso no rosto sem saber como reiniciar uma conversa.

Fora a noite em que ficaram juntos pela primeira vez. Ela se deitou sobre o ombro dele e aquele foi o melhor lugar onde já adormecera. A cama ocupada e o som da respiração do amante tornou o ambiente menor, sentiu-se aconchegada. Bom seria não ter nunca amanhecido. Melhor seria a vida ter congelado seu momento de cinema que, anos após, ela reconheceria na tela.

Mas nada impede o tempo de correr. E ela estava só na sala vazia, desligada da TV que ainda funcionava. Imóvel. Lembrando-se de que Cláudio andara pela casa prestando atenção aos detalhes da modesta decoração. Para Maria, significou que ele aprovara suas escolhas e que, um dia, poderia viver ali. Só porque ele sorria – não se importava se era apenas cordialidade -, só porque ofereceu-lhe um dos ombros, só porque estava ali, ela já se imaginou trazendo o puff para que ele sempre pudesse apoiar seus pés enquanto lesse o jornal ou servindo-lhe à mesa o cardápio de que mais gostasse. Conversariam horas inteiras.

No sorriso dele, Maria enxergava o futuro. Mas Cláudio apenas caminhava curioso, ganhava tempo até deitar-se com ela nos lençóis brancos e lilases. Beirando o amanhecer, partiu, deixando Maria entre os travesseiros da cama desarrumada. Beijou-lhe, antes, a testa, os lábios, o ombro esquerdo, acariciou-lhe os cabelos. Ainda de olhos fechados, ela sorriu, feliz, diante da certeza de que viveriam juntos.

Já não saberia dizer por que há tanto tempo viviam em silêncio, separados. Também não se lembrava da sensação ruim de sentir ruirem os planos do futuro. Só de quando ainda eram planos frescos, recém-traçados. Nem se algum desgosto ficara para trás. Nada tão forte que lhe comprometesse as esperanças em definitivo a ponto de mudar o rumo de toda a história.

Quando o marido chegou da padaria e perguntou-lhe sobre o final do filme, ela não respondeu. Quando se aproximou dela, encontrou-a com o olhar perdido, os olhos molhados. Tocou-a, chamou-a de volta à realidade, ela não se voltou para ele. Estava presa naquela memória quente de quando fora amada numa noite mais do que se lembrava de ter sido por toda a vida. Preocupado, ele a balançou ligeiramente. “Sou eu: Cláudio! Vc tá bem? Vc não me reconhece?”

Ela não voltou, ela não voltaria mais, largada na cama branca e lilás do passado, com um sorriso no rosto e a alma cheia de esperança.