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Se todas as palavras que há em mim pudessem ser ditas, responderia ao que você me perguntou em silêncio: o meu amor morreu numa manhã de julho. Era alegre e definitivo. Mas, no dia em que acordei gasta pelos anos em que se transformara em contínua superação, anunciou-me sua morte. Sem sustos.

Se eu pudesse dizer mais, diria que fui tomada de compaixão diante de sua fragilidade. Um sentimento frágil nos torna ainda mais frágeis do que nos sabemos ser. Faz-nos caminhar sem fé, apenas num gesto contínuo, num impulso de sobrevivência.

Mas hoje estou desperta, desde que você entrou, na hora exata em que tocava uma boa música. Não foi cena de cinema. Foi só a vontade de dançar e ocupar lugar nos braços de alguém que me acompanhasse – nos seus braços, que logo cercaram-me a cintura no convite que tanto esperava.

Nada sei. Precisamos esperar pela certeza de que a atenção trocada não foi apenas gesto enebriado pela alegria e pelo álcool. Neste momento, não me interessa saber. Guardo num cinturão imaginário as palavras que ontem poderiam ferir, hoje podem materializar o mundo que deixei para trás.

Confundo painéis enquanto você me gira. Vejo as paredes brancas da minha casa onde se imprimem as cores piscantes da pista em que dançamos. Substituo a lembrança da noite úmida, que observo da minha varanda enquanto o sono não vem, por uma nova, cortada de risos e toques espontâneos, em que meus sentidos acordam e navego por suas mãos.

Misturo sentimentos. Possuo um certo recato porque não te conheço. Como você não me conhece. Não sabe do quarto que ocupo num hotel próximo, onde, sobre a cama estreita, há apenas os lençóis resfriados pelo entardecer na serra. Nem que risquei a mesa onde tentei escrever a carta que nunca remeterei, na tentativa de ouvir uma voz, ainda que somente a minha voz, fugindo da mente atrapalhada pelas lembranças do dia em que o deixei. Não imagina que meus olhos se abrem na direção da luz do globo que gira sobre nós porque fui acordada pelos raios que ultrapassaram as frestas da veneziana pela manhã, no quarto em que me tranquei e onde o dia cismou de amanhecer.

Na carta que não escrevi, dizia assim: “Talvez não devesse ter partido sem você. Mas meu caminho até aqui foi tão natural. Como acordar, abrir os olhos e respirar. Meus passos, autônomos, me afastam daí”. Palavras que espero nunca escrever para você. Pois tenho um desejo surpreendente de deitar a cabeça em seu ombro. E de que a música nunca termine, o globo não deixe de girar, as luzes coloridas de vencer as sombras desenhando, alternadamente, rostos e movimentos no salão escuro.

Recuso a taça de vinho que o garçom oferece. Nunca saberei que barreiras romperíamos quando os filtros caíssem e você me abrisse sorrisos largos. Nunca…

Separo as coisas. Real é o silêncio, a noite fria, o hotel vazio onde nem mesmo os passos calmos do faz-tudo ouve-se de dentro do quarto. Etéreos são os locais onde os cheiros e os sons do salão me levam, sob luzes intermitentes e música a massacrar o fluxo das palavras. O real é fantasia que não quero sonhar. O sonho é realidade que quero construir. Por isso, envolvo você num abraço, encosto meus seios no seu peito e escorrego minhas mãos em seus cabelos.

Mas sei que só amanhã, quando nada mais girar, saberei se você realmente está aqui.