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Sobre as areias dos dias constrói-se a casa, com portas e janelas abertas para o sol.  Pintam-se as paredes com as cores claras dos planos futuros e das histórias vividas.  Com alegria, finaliza-se o trabalho, abrindo-se, com as próprias mãos, uma estrada larga em frente ao cenário construído.

Esquece-se da força do mar, cuja presença pode ser serena quando invade os caminhos alargados da estrada.  Mas há vezes em que, chegando à porta da construção, derruba uma parede, recolhendo-se para compor uma onda ainda maior.  A onda mais forte, de uma só vez, funde casa, muro, estrada e chão sobre o qual se desenhava todo o projeto.

Então, como um banhista de qualquer praia, aceita-se humildemente a inevitável força da natureza e abandona-se por um tempo toda a obra.  Mergulha-se no mar, luta-se contra a correnteza nos dias de cautela ou entrega-se a uma onda mais generosa nos dias brandos. 

De volta à meta traçada, recomeça-se.  Com a mão, com a ajuda de pás e objetos de ponta, imprime-se à frágil obra contornos mais reais até o momento em que nova onda surpreenda o escultor. E, depois, outra e outra até que, definitivamente, destrua-se por inteiro a arquitetura sonhada.  

Só lhe restará mergulhar e abandonar o mar, pisando a areia em direção à margem, embora puxem-lhe as ondas.  Continuar em direção à rua – segunda margem – onde caminhar exige menos força e torna mais fácil manter-se em equilíbrio.

Sobram-lhe o som do mar e as vozes confundidas daqueles que o cercavam.  Sobra-lhe o vento agitando-lhe os cabelos e a ponta da toalha,  jogando-lhe areia contra a pele já coberta de sal.

Mais tarde, resgatará, no percurso de volta à casa, a lembrança morna do vento. E minutos antes de adormecer, poderá ouvir o mar se aproximando e fugindo. 

Já não haverá castelos sobre a areia.  Mas a incessante vontade de construí-los, sempre que os vir serem desmontados.