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Começou assim: abraçada ao filho, como se o menino crescido fora ainda bebê, entrou no mar ao encontro de uma amiga.

Mas a luz do dia se apagou na primeira pisada na arrebentação. Os pés molhados, o abraço intenso no filho, os passos paralisados diante da escuridão e apenas o contorno da amiga ao longe, entre ela e o horizonte, fizeram-na  sentir-se insegura.

Sob os pés, um foco de luz.  Podia ver-se, sob a água límpida, pedrinhas coloridas sobre a areia da praia mas o passo seguinte era sempre um mistério. O mar era um enorme borrão preto à frente.  O luar só clareava o horizonte. Ao caminhar, somente um pé se mantinha sob o foco: o que pisava a areia da arrebentação. O outro, somava-se a tudo que estava oculto.

Onde estava, sentia medo de caminhar, medo de soltar o filho, medo do passo seguinte, embora soubesse que precisava mover-se, avançar, banhar-se e deixar o mar antes que uma onda maior a surpreendesse. Daí vinha sua angústia.

Virando-se, avistou uma choupana na praia, em que havia música, sons de risos e vozes, uma TV ligada, um ambiente que lhe era estranhamente familiar.  Como se viesse de lá, quando viera, de fato, da areia branca da praia deserta, onde construíra, momentos antes, figuras de areia com o filho, que a água não alcançou, no ritmo calmo que incorporou para atraí-la.

Mas também voltar à praia parecia arriscado… Virar as costas ao que se disfarçava na escuridão em calmaria, deserto, lagoa.

Desceu o corpo na água, deixando cobrir-se até o pescoço.  O filho adormecido no colo, molhou-lhe os cabelos, beijou-lhe as bochechas e saiu do mar, acenando à amiga que mergulhou e sumiu do sonho.

Sentou-se na areia e estava sentada, de fato, na choupana, no meio de uma festa que parecia Natal e todos eram desconhecidos, embora ela conversasse com a mulher a seu lado como se íntimas fossem.  Quem as visse, entenderia os assuntos que já começavam pelo meio porque eram todos antigos.  Seu filho sorria, protegido naquele ambiente de amizade com que criara um vínculo imediato, que não existia senão em sonho.

Acordou, então. A camisola molhada contra o corpo, um silêncio de ruído perturbador, a lua alta num céu absurdamente limpo de nuvens e repleto de astros.  Sentia-se feliz por libertar-se do sonho, sentada na cama, os olhos se acostumando com a escuridão, o coração acelerado.

Levantou-se e foi à cozinha beber um copo de água que lhe alargou caminho no esôfago, melhorou sua respiração e devolveu-lhe o conforto da noite, embora os pés descalços tocassem o azulejo frio, levemente engordurado, da cozinha.  Embora estivesse só. 

Percebeu, então, como o sonho era lúcido. Lançando-se em direções opostas, sonhara em avançar rumo ao futuro.  Deitada na cama, sentada estava na areia, entre o mar e a choupana, preservando castelos que se destruiriam, senão agora, numa hora seguinte, em que o mar avançasse sobre eles.  Pois há sempre uma hora em que o futuro chega, mesmo que não tenhamos caminhado em sua direção.  Fora do sonho, seu perigo real era a areia e a paralisia de sua vida. 

Por isso, antes mesmo de amanhecer, planejou abrir a porta, sair à rua, recomeçando, abrigada entre os novos rostos que a cercam, a construir uma casa em que seu filho pudesse brincar pelo chão. 

 Prometeu abrir-se profundamente às possibilidades de uma nova vida, pois, embora não reconheça rostos, reconhece-se entre eles.