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Ajeitou-se diante do espelho na porta de entrada do restaurante, arrumando os cabelos num gesto repetido por sua ansiedade. Checou mentalmente os preparativos com o corpo, a roupa escolhida e as frases pensadas que poderia usar caso não tivessem o que falar dentro do carro, a caminho de sua casa onde ficariam juntos pela primeira vez.

Inquieta, permanecia em pé, procurando entre os rostos que atravessavam a porta o de Alberto, sem reconhecê-lo na juventude do rapaz de moletom nem na excentricidade do amigo que o acompanhava e tinha a pele coberta de tatuagens e piercings. Até que, olhando a vitrine de salgados da delicatessen, sentiu a cintura cercada pelos braços do homem com que passaria a noite planejada.

Como ele dissera que iria com ela, deixara trocado o caminho de mesa e tirara do armário as almofadas que exibia somente para as visitas, jogando-as sobre o sofá branco. Esquecera-se, contudo, de deixar aceso o abajur que trazia à sala um charme intimista, acolhendo-os melhor na chegada, e lamentava-se por isso enquanto se cumprimentavam, mesmo sabendo que Alberto não notaria qualquer diferença no ambiente que desconhecia.

Tomaram um chopp juntos no bar do restaurante. Marilia sorria, deixava descontrair-se, notava o desenho dos fios grisalhos sobre os cabelos negros de Alberto, passava-lhes a mão na tentativa vã de desalhinhá-los, reconhecendo o homem a seu lado. Alberto era macio: cabelos, pele, mucosa dos lábios. Ela o percebera lentamente nos encontros anteriores. Ele a sabia bonita mas não lhe prestara tanta atenção assim. Apenas gostava de como ela achava graça nas suas histórias mais comuns – ele que era um homem tão sem histórias, afundado nas obrigações com o trabalho. Notara, contudo, que a mulher pusera o colo e as pernas um pouco mais à mostra e avermelhara os lábios num tom mais marcante. Ele, que a desejava há tempos, notando-lhe o empenho em agradá-lo, desejou-a ainda mais.

Conversaram pouco e pegaram um táxi não para a casa dela mas para o motel mais próximo por sugestão dele que a convencera de que chegariam mais rápido, de que teriam mais tempo, de que a vontade era tamanha. Marília concordou com tudo, embriagada pela atenção que Alberto a dispensava, distraída do significado daquele movimento que os desviava do destino prometido.

Chegando, Marília demorou-se no reconhecimento do quarto. Comeu os bombons à cabeceira, acendeu e apagou as luzes da pista de dança, achando engraçada a artificialidade do ambiente. Ele se sentou na cama, observando como ela se divertia testando botões na tentativa de ligar o ar condicionado porque a noite estava quente e haviam pedido um vinho.

Alberto a beijou suavemente, num impulso de puro carinho. Como se fossem cúmplices na inexperiência de deslumbrarem-se um com o outro, tão comuns, tão sozinhos, entre tantos seres de um mesmo planeta. Diante de sua delicadeza, a mulher cedeu rápido ao beijo e ao sexo. Abriu-lhe a camisa, encostando seu peito contra o dela e desarmou-se dos jogos de sedução. Raciocinava simples assim: como encontrara-o sozinho numa outra noite, sonhara fazer-lhe companhia em noites futuras, em que riria de suas piadas porque costumava rir-se quando estava feliz; como ele dissera que viria, estreou a lingerie importada que desenhava sobre a pele branca a renda sobriamente colorida que mais armava-lhe os seios.

Alberto lhe fizera poucas promessas que lhe soaram como promessas de uma vida porque se perdera imaginando com ele noites em sessões de cinema, uma viagem futura e uma pizza quando fossem mais íntimos. De todas as promessas reais, a mais importante: uma noite só para eles. Fora a de maior envolvimento até então. E a que podia esgotar-se mais facilmente.

Conscientizando-se disso, mais tarde, sozinha em sua cama, Marília se perguntava se deveria tê-lo feito esperar mais por ela, absorvida pelo medo natural de toda mulher de ser descartada quando satisfeita a curiosidade do homem com que se relacionava e que se negara, sutilmente, a entrar em sua casa.

Alberto nem fazia idéia de que, ao sorrir, criara esperanças de um futuro, ainda que modesto, e que, ao convidá-la, sugerira a intenção de um compromisso, ainda que frágil. Adiaria um encontro posterior quando alteradas suas prioridades, sem nunca ter dito a Marília que lhe era grato por tê-lo olhado de perto nas saídas que os aproximaram, sabendo apontar-lhe os sinais em sua pele, a disposição dos fios de seus cabelos, os sabores de sua língua e seus vícios de linguagem. Com Marília, ele existia de forma individualizada num mundo onde sua presença se notava pelos resultados que atingia e que o destacavam no grupo de trabalho. Ninguém além de Marília notara-lhe a ponta do dedo machucada e o ar cansado depois das horas de reunião. Chegou a pensar que poderia amá-la por isso.

Ao final da noite, ela estava repleta da forte presença do homem a quem se entregara. De olhos abertos, passava a limpo as palavras ditas nas noites anteriores e nessa em especial, sem imaginar que ele, por sua vez, adormecera rapidamente, com a lembrança de estar pregado no corpo dela, tranquilizado pela satisfação de suas expectativas.

Assim, por não entender que quando uma mulher oferece o corpo, entrega junto a alma e que quando sugere abrir-lhe a casa, quer abrir-lhe a vida, Alberto nunca entendeu o tamanho da mágoa que ela nutriu por não ter sido procurada nos dias imediatamente seguintes. Afastou-se dela por não reconhecer-lhe a dor por trás da frieza com que ela atendeu sua ligação, numa semana mais distante. Saiu ileso, avaliando que tinha pouco a perder, já afastado em dias da voz e do carinho dela.

Marília perdeu mais pois deixara construídas pontes para um futuro que não viria. Voltou cansada para casa nos dias seguintes, com a sala escura esvaziada de adornos, a caixa de mensagens vazia de palavras de carinho e a vida sempre por recomeçar.