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A gente não percebe o amor

que se perde aos poucos

sem virar carinho

(Nando Reis)

Parecia-lhe um desperdício entregar a outro a ternura que reservara para ele.  Por isso, esperou mais uns dias pelo telefonema prometido ou por um SMS, alternativamente.  Mas nada se alterou.

Até saírem, antes, observara-o de perto.  Analisou se o interesse permanecia diante de suas primeiras recusas e se o flagrava olhando em sua direção quando estavam em rodas diferentes.  Aceitando o convite, percebeu que ele planejava um tímido futuro – um telefonema no dia seguinte, uma dica de viagem para quando tirassem férias, irem juntos a um compromisso comum de trabalho meses à frente, pequenas coisas que lhe sinalizavam a segurança de render-se a um homem que não queria nada casual.  Ele parecia querer ficar a seu lado, ainda que despretensiosamente.

Quando, enfim, ficaram juntos, embriagada pela noite de carinho, não enxergou os novos sinais.  Ele a colocou numa condução a caminho de casa, porque era tarde, havia trabalho pela manhã.  E como beijara-lhe demoradamente e elogiara a noite, ela acreditou que se encontrariam de novo na semana seguinte.

Mas aceitou desmarcar o encontro quase na véspera, pois ele lhe apresentou uma boa desculpa e, até que se calasse de vez, trocou torpedos de saudades e listou impossibilidades de horário.  Como os gestos foram lentos e delicados, ela demorou a perceber que ele partira de vez.

O tempo passava e ela ainda recusava novos interesses, não porque ainda tivesse esperança.  Já distribuíra os fatos numa lousa mental, racionalizando a situação.  Reavaliara palavras, gestos, mesmo os mais positivos, e concluíra que ele não voltaria.  Mas como atrás da esperança há sempre a ilusão, perguntava-se se o destino não lhe reservaria uma outra chance de cruzar com ele nos corredores por que já não passava, num dia em que sorriso, olhar, cabelo, maquiagem, vestido e perfume lhe fizessem parecer de novo atraente aos olhos do homem por quem se apaixonara na primeira e única noite de amor, fazendo-o perguntar-se se não era desperdício ter negado a ela os carinhos que merecia.

Eis o motivo dos atrasos no trabalho.  Todos os dias – qualquer dia poderia ser o dia – ela se demorava em escolher os detalhes acessórios da sua perfeita aparência.  Mas enfraquecia-se, após saltar do elevador no andar que ele nunca visitara e assistir as horas correndo em silêncio.  Ainda assim, mantinha o corpo pronto, carregava sempre numa bolsa uma lingerie reserva, um gloss e uma sombra mais escura, para uma saída à noite.

Começou a escrever-lhe mensagens na tentativa de despertar-lhe saudades. Amorosas. Sempre verdadeiras, sempre saudosas.  Dava pra ouvir-lhe o riso nos mínimos textos alegres ou reconstruir as situações que descrevia.  Ele era um homem sedutor, respondia-lhe com gracejos e, depois, com objetividade – com educação, mas sem carinho.

Por essa razão, muito tempo depois, sem que ele estivesse em sua vida, como de fato nunca estivera, sem que ninguém os tivesse visto juntos nem recebido de um dos dois qualquer confidência sobre o outro, ela se sentou no banco do carro, depois do trabalho, e chorou como seria normal chorar na manhã seguinte em que fora rejeitada por ele e por todos os homens que já amou.  Chorou ao perceber que possuía em suas fantasias elementos mais concretos do que sua própria realidade.

Como não aprendera a reconstruir-se, demorara a admitir-se quebrada.  E mais se fragmentara tentando juntar as partes que se romperam bem antes, na intenção do amante antes mesmo de serem amantes.  Perdeu-se diante do paradoxo: como querer viver intensamente e protegida se, para proteger-se, é preciso considerar que a vida não lhe sorrirá e, por isso, ser menos intensa?

Tudo, então, seria desperdício. Entregar a outro o amor que era dele. Entregar-se ao amor.  Entregar-se.