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Passara um ano sem dormir direito. Um ano. Rolando na cama, aconchegada entre os travesseiros que, no meio da noite, sufocavam-na. Dizendo aos amigos que as enormes olheiras disfarçadas sob a maquiagem eram da rotina apressada ou, talvez, de uma pequena anemia – comia mal porque o trabalho lhe exigia.

Passara-se um ano e todos os seus dias eram comuns. Deixava as crianças na casa da avó antes de ir trabalhar, comprava no mercado os produtos que faltavam em casa no final da tarde, esmaltava as unhas na sala enquanto assistia à TV, debruçava-se sobre os deveres de casa dos filhos e encerrava a noite tomando um leite morno na cadeira da varanda, em silêncio.

Vivia cada pedacinho da sua rotina com concentração, dedicada a manter as coisas no lugar em que estavam, como se qualquer parte faltante pudesse fazer desmoronar algo sobre ela. Sabia-se instável, protegida por uma fina camada que lhe cobria a alma e que poderia trincar-se, caso lançassem em sua direção alguma verdade pontuda.

E o que lhe tirava o sono era desconhecido mas parecia-lhe irremediável. Não sabia o que lhe faltava enquanto se sucediam os dias, por mais seguros que fossem. Entretanto, algo a pressionava contra as paredes do quarto na noite silenciosa, fazia pesar sobre seu corpo o lençol de algodão. Levantava-se, checava o gás e as torneiras. Cobria os filhos no quarto ao lado, beijava-lhes a face tenra, sentia-lhes o cheiro. E acalmava-se.

Pela noite afora, no entanto, sentava-se sobre seu peito um corpo etéreo, imaginado, uma presença não reconhecida. Estava presa a essa sensação eterna, incurável. Que, algumas vezes, assaltava-lhe também durante o dia, embora, pela manhã, fosse mais fácil dispersar-se entre os muitos afazeres, esquecendo-se até mesmo de si.  Na maior parte do tempo, seguia leve, sequer notava o mundo à volta até ver-se envolvida num abraço aos filhos na porta da escola na volta para casa.

Numa noite, surpreendeu-se: faltava-lhe o futuro! Aquele que ainda não há mas que certamente se concretizará. Pois já falamos dele com os amigos no intervalo do almoço. Já contamos com ele quando equacionamos as despesas do mês. Já o discutimos antes de dormir, na mesa do jantar ou na cama nos instantes que antecedem a inconsciência. O futuro que imaginamos desde o momento primeiro. Que no primeiro beijo faz nascer o desejo de amar. Que na primeira viagem faz nascer o desejo de desbravar a vida. Que nos primeiros sonhos em comum faz erguer a casa e a família a construir.  Faltavam-lhe as realizações do futuro que não chegaria, que foi interrompido quando o amor partiu: a casa de campo que alugariam por longas temporadas para receber a família, os lugares que conheceriam juntos, os altares que dividiriam nos casamentos dos filhos, as festas em que dançariam sob o olhar carinhoso dos amigos da vida inteira quando já fossem de toda a vida.

Apavorou-se por ver-se tão enraizada no que fora apenas um sonho que nunca existiria de fato.  Mas cuja ausência era avassaladora. Sem ele, não havia motivos para poupar o dinheiro com o qual realizaria as pequenas ambições materiais que tivera.  Nem era necessário manter-se jovem e alegre para ainda ser notada, ainda dançar, ainda ser amada. Nenhum esforço se justificava pois tornara-se incapaz de visualizar-se naquele futuro, embora tivesse passado anos preparando-se para vivê-lo. Despojada dele, sentia-se medíocre no momento em que não tinha outro para por em seu lugar. E talvez nenhum gesto fizesse sentido, talvez nada efetivamente importasse no presente.

Desmontou-se profundamente entre esses pensamentos e perdia-se em sua angústia quando a filha bateu à porta do quarto, abraçada à boneca, pedindo ajuda para manterem-se, ambas, aquecidas no abraço da mãe.  Apertou-lhe contra o peito, salva sob as cobertas, encolhendo-se no canto da cama para acomodar junto o filho menor que acordara de um pesadelo e também procurara abrigo.

Abraçada aos filhos, percebeu que não houvesse futuro agora, um novo haveria, com projetos que ainda não era capaz de elaborar. Por enquanto, então, ficaria aninhada na vida que construíra, ainda que perdidas umas peças, passando por cada dia com vagar e por cada emoção cuidadosamente. Presa no presente, modificada, mas onde a maioria das coisas ainda lhe eram familiar. Até o dia em que, recuperado o sono, acordaria e ousaria voltar a sonhar.