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Beatriz  é uma mulher linda.

Mas para que se possa  perceber-lhe a profunda beleza, é preciso estar  perto quando, chegando em casa, ela tira os sapatos ainda na sala e caminha com graça até o banheiro onde se despe para o banho.  É preciso descobrí-la após a limpeza do rosto e sob os cabelos revoltos, soltos do coque que os protegia da água.

Observando-a vestir a camisola negra de rendas, escolhida displicentemente,  sobressai-se muito da naturalidade de Beatriz.   Sem os disfarces de make-up, seus olhos  brilham,  ofuscando as olheiras que se preocupa em disfarçar pelas manhãs.  Cheios de curiosidade, fixam-se na televisão, nas páginas de jornal e na expressão de quem lhe acompanha até o fim da noite.

Há uma suavidade na voz de Beatriz, que não se destaca de forma óbvia.  Ela não soa especial. Não lhe dê qualquer canção para entoar que, inclusive, desafinará as notas mais básicas. Mas é doce ouvi-la  à noite, enquanto enrola na ponta do indicador os cabelos ainda desajustados, narrando a rotineira conjugação das horas do seu dia.  Hipnotiza o ouvinte e, involuntariamente, desvia-lhe a atenção até o contorno dos seus lábios, fazendo-o imaginar os sussurros possíveis nas horas em que estiverem a sós.

Nesse ponto,  nota-se-lhe  a textura da pele, que parece coberta de uma camada muito fina, aveludada, de um creme qualquer. Mas que, num contato mais íntimo, é só pele.  Podem-se sentir até pequenas asperezas, um arranhão cicatrizado de um ferimento recente ou uma alergia na palma das mãos que serão lembrados apenas pela maciez. Porque ao alisar seus braços, pernas, seu rosto é embriagante assistí-la desfolhar-se diante do espectador.

Ela é uma mulher que não se destaca na multidão com que nos misturamos no dia. É sutil, quase imperceptível. Exceto quando sorri na sua direção, esgarçando os lábios numa alegria que a inunda e que desperta no outro felicidade por fazer-lhe desabrochar  por um instante, no meio do dia, repentinamente.

Por isso, sua beleza não notam os distraídos.  Quem só olha sobre a superfície, passa por ela sem modificar-se. Mas ao mais atento, a mulher se destaca. Sua profundidade escorre na fala mais simples, envolvendo o outro em enredos desconhecidos.  E  sobressaindo-se heroína das histórias que narra, impossível não perceber sua potência,  nem desviar a atenção do desenho dos detalhes do seu corpo, discretamente cuidado.

Sua beleza  só alcança quem chega suficientemente perto a ponto de ela tocar-lhe os cabelos com suas mãos longas, trançando-os entre seus próprios dedos, aninhando-se, confiante, no peito do escolhido. Só quem chegar um pouco mais além, admirando-lhe a generosidade e implorando-lhe sua íntima atenção,  pode fazer o coração dela dilatar-se em amor e intensidade.  E fazê-la desenhar-se, única, à sua frente, em detalhes que jamais serão encontrados em outra mulher.