Não foi real
embora chegasse a tocá-lo.

Não existiu:
ninguém o viu,
nenhum dedo o apontou.

Mas cresceu,
como se fosse
rosto reconhecido,
voz identificada.

Me escapou,
como os sonhos,
quando despertamos;
as dores,
quando nos enebriamos.

Ficou o sentimento
do dia em que me iluminei,
em que o beijo que, dizem, não beijei
me acendeu,
como se nas veias corresse luz.

E me levou
a um lugar que não há,
à sombra
da lembrança que esmorece
mas da qual renasço
de tempos em tempos,

porque
o que se sente
sempre vive além,
ainda que morto
no instante anterior.