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Ausentara-se da praia nos últimos anos, evitando o desconforto do chão irregular ou de sair à vila com os pés sujos de areia. No reencontro dessa tarde, disfarçou pegadas, arrastando os pés para apagar os caminhos que, involuntariamente, desenhou na direção do mar. Entrou na água, então, deixando a onda passar e erguê-la por instantes, já numa tensa observação da outra que se formava mais atrás.

Justamente ela, que se protegera da claridade dos dias, caminhou sem óculos nem chapéu naquela tarde ensolarada e decidiu conhecer o alto mar, depois de um homem apontar-lhe o horizonte com promessas de beleza, vendendo-lhe o pacote para o batismo de mergulho.

Aceitou o desafio e navegou de jangada até um ponto específico. O mar estava verde e turvo, resultado das chuvas dos últimos dias. Trazia o coração à flor do peito e a cabeça acelerada em ponderações.

À beira da embarcação, o instrutor lhe ensinou a respirar sob a água, além de alguns sinais básicos de comunicação. Falava pausadamente, acalmando-a com sua expressão serena e a segurança dos muitos anos na profissão. Mas ela estranhava o peso do cilindro de oxigênio, demorava a adaptar-se ao aparato de mergulho, mordia intensamente a vedação da passagem de água como se, até na superfície, pudesse afogar-se. Repassava, confusa, os sinais aprendidos e quase desistia até que outro iniciante voltasse à tona com um sorriso de encantamento, recompensado pela experiência que, mesmo temendo, ela queria viver.

O instrutor a tomou pela mão abruptamente, mergulhando seu rosto na água. Foi-se acostumando ao exercício novo de respiração, sentindo tornarem-se leves, dentro da água, os pesos impostos ao corpo para a aventura. Mas hesitava em avançar. Diria ao instrutor: “não me solte a mão”. Se pudesse, repetiria, ainda, num tom doce e frágil, “não me solte”, porque no percurso até o mar tantas mãos não se firmaram como apoio. Pediria sem pronunciar palavra, como alguém que suplica a um deus um milagre de cura. Perdera-se em terra, não podia perder-se no mar.

Ele não a soltaria nem uma vez. Por isso, avançariam metros em direção ao fundo do mar, enquanto ele lhe apontava os corais cheios de vida.

Ainda administrando respiração e nervosismo, deparou-se com peixes que saíram furtivamente de um coral. Iam e voltavam das pequenas cavernas, curiosos, destemidos e permanentemente agitados. Faziam um risco colorido a sua frente e fantasiava que poderia ouvir-lhes a alegria não fossem tão altos os sons da respiração e do batimento cardíaco. Estendeu-lhes a mão livre mas, ainda assim, não os tocou, com medo de que o gesto os assustasse. Os peixes nadaram entre seus dedos, ao seu redor, aproximaram-se da máscara de mergulho, dando-lhe a impressão de que era ela quem estava no lado de dentro do aquário.

Estava no meio do nada. À volta, estava cercada de paredes esverdeadas que não existiam. Dissipavam-se pelo mais tolo movimento de braço. Do alto, os raios de luz desciam em sua direção, fragmentando-se, cercando-a com uma aura. Como se tudo não fosse tão espontâneo mas profundamente estudado, estava no foco daquele ponto de luz.

Perdera-se nesses pensamentos e sentiu-se desprendida, solta no meio do oceano, sem afundar nem emergir, sem pressa. Até que o instrutor lhe fez um sinal de OK que ela retribuiu – era uma pergunta e uma resposta. Comunicaram-se! E, por um instante, a despeito do medo e do risco, ela riu-se, ciente do privilégio que vivia: avizinhar-se da vida que agita e colore o mar silenciosamente; sentir o silêncio que se impõe, escutando os movimentos sutis do próprio corpo; ser um ponto negro no oceano que decompõe os raios solares num cristal de água e sal.

Se fosse um pouco maior a emoção, talvez nem conseguisse respirar – o medo ia e vinha, cobrando-lhe foco nos sons do cilindro e os olhos grudados na luz que indicava a direção da superfície. Mas o que sentia era grande, misturava a superação do seu temor com o testemunho da beleza pura e simples, que existe no mundo como presente do Criador – quando a tocamos, parecemos tocar a ponta de Seus dedos.

O homem lhe puxou delicadamente na direção da jangada. Ela se deixou levar, exausta da respiração, exausta da emoção, batendo as pernas com cuidado, resguardando de um gesto brusco os corais que se abriram em alegria diante dos seus olhos.

Nunca mais olharia o mar da mesma forma. Nunca mais se esqueceria que conjugou, num instante, toda a sua fragilidade e toda a sua coragem. Que, seres enormes, somos, como os peixes, apenas pontos no oceano que nos abriga. Que, mesmo pequenos, podemos ser espectadores da vida que se abre repentinamente em espetáculos para nós, manchando de cores a água turva que nos cerca. E que, mergulhados, ficamos mais leves, mais livres, batemos os pés e avançamos, ainda que carreguemos nos ombros mais peso do que supúnhamos poder suportar.

Porto de Galinhas, julho de 2013