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Terminado o cortejo, correram até a porta da igreja, fugidos da chuva forte que encharcara-lhes as roupas. Refugiaram-se no hall da nave.

Contrariada por ter que desviar-se do caminho de casa, onde encontraria a pausa necessária após o exaustivo dia de pêsames, Elisa se separou do grupo formado pelos que se abrigaram ali. Caminhou em direção ao meio da igreja, entretendo-se com as imagens dos altares santos.

Luís só percebeu que ela se afastara, quando, olhando para o interior da igreja, viu uma mulher enxugando o rosto num lenço branco diante do altar, como uma fiel diante de Deus – na verdade, ela, secando-se.

Como prendera os cabelos num coque improvisado e tinha as roupas coladas ao corpo, adquiriu um ar frágil naquele lugar cercado de silêncio e penitência. Examinava-a, comovido pela cena que se formara involuntariamente, consciente, entretanto, de que o lugar em que estavam sugeria muitas emoções.

Sentou-se a seu lado e tentou continuar a conversa que o temporal interrompera, oferecendo atenção à amiga que lhe narrava os momentos finais da vida do irmão, após o ineficaz tratamento. Mas ela desconversou, distraída na observação dos trançados dourados do púlpito, cercados dos desenhos talhados em madeira, que eram simétricos e tão cuidadosamente elaborados que chegou a pensar que era o mais próximo que chegaria nessa vida à admiração de uma obra perfeita.

Luís sentia fortemente o cheiro cru que a chuva fazia brotar do asfalto, da terra das árvores em volta da igreja, dos veludos umedecidos das imagens que se posicionavam sob uma goteira num altar secundário. Era como se a alma do mundo brotasse das entranhas da cidade, cercando-os com sua energia morna e o aroma bom de terra e folhas,

Elisa pôs a mão sobre seu braço e sem virar-lhe o rosto, disse-lhe:

– Vê?

Olhou na mesma direção que a amiga. Havia um altar lateral cuja figura central era a cena da cruficifação de Jesus Cristo. Reagiu:

– Toda igreja católica possui uma imagem de Cristo pregado na cruz.

Ela o interrompeu:

– Não! O outro Cristo!

Ele, então, prestou mais atenção nos componentes do quadro: aos pés de Cristo crucificado, estavam Maria e João; diante dele, o próprio Jesus em pé, observando a cena, com uma mão sobre o peito.

Perdeu-se um minuto admirando aquele retrato, embaralhando os pensamentos  com o que a amiga vivera até a hora anterior. Enterneceu-se e calou-se. Emocionalmente cansada por cuidar do irmão nos últimos meses de vida, a amiga também percorrera, ao lado dele, sua própria via crucis.

– Lindo! – disse a mulher – Que acha?

Luís não era religioso. Em algum momento de sua criação, internalizou que havia Deus mas nunca se preocupou, de fato, com isso. Bastaram-lhe as missas dominicais da infância. Dispensara-se do raciocínio acerca das grandes questões existenciais, buscando, apenas, o conforto de uma vida sem muitas surpresas nem muitos riscos. Queria dizer algo mais reconfortante à amiga, mas faltava-lhe esse entendimento. Foi sincero:

– Vejo um homem – disse, surpreendendo-a.

– Como?

– Vejo um homem que pára e olha para seu sofrimento; que se posiciona fora da situação que o maltrata, avaliando-a a partir de uma outra perspectiva. Toma-se de compaixão por si. Por isso, traz a mão ao peito. Recompõe-se. Por isso, possui o semblante amoroso e a aparência restaurada. É preciso compreender sua angústia para seguir adiante. Só assim, liberta-se da dor e segue em paz.

Luís sempre a comovia com seu pensamento bruto. Embora possuísse facilidade para enxergar profundidade nas coisas, sempre partia da concretude delas.

Ela se recolheu. A imagem lhe sugerira várias explicações religiosas. Entretanto, como o amigo lhe empurrara uma leitura humana, esvaziando o ânimo de uma rasa discussão teológica, apenas disse-lhe:

– Não importa a religião, percebe?, para que a presença do “segundo” Cristo grite para nós a transcedência do espírito. Posso pensar que é, apenas, mero recurso para materialização dessa idéia ou posso entendê-lo de uma forma bem específica, conforme a crença que professar…

Ambos mantinham os olhos fixados na imagem e ela concluiu:

– Já não importa, amigo, se transcendemos através do pensamento ou do que há em nós de divino. Importa, apenas, que transcendemos, certo?

Elisa se levantou, deixando-o para trás, e pôs a mão nos pés da cruz, espelhada na imagem de João. Tinha as sobrancelhas unidas no centro da testa num gesto de contrição.

Luís percebeu que, para a assimilação da dor recente, seria bom aproximarem-se as idéias:

– Talvez seja na força do homem que esteja a transcendência; não em seu corpo físico, mas em sua alma – disse, sabendo que a agradaria.

Estiou e as pessoas esvaziaram a entrada da igreja rapidamente. Mas a movimentação ruidosa da gente para ganhar a rua não lhes desviou a atenção – estavam juntos, num mesmo momento, na mente e no coração.

Seguraram o instante, emocionados, até que o vigia lhes avisasse que a igreja seria fechada, impulsionando-os a voltar a casa. Embora alguns postes estivessem sem luz e houvesse largas poças no chão, retomaram seus caminhos, levando no peito a prece que ensaiaram, em silêncio, diante daquele altar.

(O texto é ficção mas o altar existe, na Igreja de San Telmo, em Buenos Aires, Argentina.)