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Percebi que o Carnaval tinha começado quando o bloco me alcançou na porta da empresa. E, na saída do trabalho, deixei passar aquela gente entusiasmada atrás da batucada. Parei sob uma marquise, um pouco irritado por estar na contramão do movimento.

Cercado por piratas e super-heróis, um ritmista de expressão fechada me chamou a atenção. Seus lábios contraídos e o ar concentrado sugeriam que era um operário daquela alegria, homem do compromisso, sem empolgação. Não seria irônico se ele, no centro da animação, estivesse contrariado, como eu no canto da rua? Pois não combinávamos com os foliões que passavam lançando confetes. Entretanto, ele não se furtava a uma participação significativa: balançava os ombros e garantia a marcação dos compassos. Unia todos numa mesma marcha, atraía para a rua as pessoas do entorno. Sua música se escutava até dentro dos prédios. Puxado pela curiosidade em relação a nossos papéis na folia, segui o cordão. Queria saber se conseguiria, como ele, unir minha vida àqueles passos.

Algumas esquinas à frente, abri a camisa, tirei as mãos do bolso e, experimentando uma leve euforia, aderi ao grupo, entoando a letra de um samba melancólico que se fantasiava de samba-arrastão nos dias de brincadeira.

A noite caiu. Transformou a rua comum em passarela. Os postes de luz acesos sobre minha cabeça pareciam holofotes. No asfalto, reluziam os pontinhos brilhantes disfarçados no concreto. Sobre o chão cintilante, depositava-se a purpurina caída dos corpos, das fantasias, dos arranjos de cabelo.

Era o mesmo chão que pisei durante a semana na ida para o trabalho. Que me trouxe de volta para casa em noites anteriores, servindo de testemunha às queixas divididas com o amigo. Como eram os mesmos os cruzamentos e as avenidas que atravessava rotineiramente, correndo para resolver os problemas comuns. Cada detalhe do caminho reconhecido por mim vestia nova roupagem, coberto de música, de cores e de sons que afrontavam a frieza do meu cotidiano de obrigações.

Misturei-me inteiramente ao cortejo de samba. Tirei a camisa e os sapatos e pus os pés no asfalto ainda quente.  Meus pés descalços abriram-se em pequenas feridas conforme a caminhada se alongou. Mas a tepidez do asfalto amortecia a pouca dor que eu ignorava, confundido pelo cheiro da cerveja e dos suores.

Aceitei a cerveja do estranho que me abraçou como amigo. Olhei a odalisca com desejo de beijar seu ventre. Rodei na minha cabeça fantasias que há tempos não me permitia. Ouvi juras a que não pude corresponder. Beijei a boca de uma mascarada. Senti meu suor escorrer pelas costas e pelos braços. A minha existência palpitava em mim.  Eu era a concretude do meu corpo, a mente despertada, a libido presente, as sensações libertas. Estava num estado breve de felicidade. Fui resgatado da apatia pelo que aquelas ruas despertaram em mim. A motivação parecia, como poeira, levantar do asfalto em que deixara meus passos de angústia e de alegria.

Algumas cervejas depois, misturei todas as vozes ao redor. Não me lembrei das letras nem consegui mais acompanhar a marcha. Perdi-me do ritmista que observava sem saber se ele sorrira em alguma canção.

Minha alegria era um sentimento muito próximo da paz. Meus próprios olhos, agora, faziam reluzir o mundo ao meu redor, cercavam as pessoas de aura, alongavam os raios dos faróis dos carros e refletiam as lâmpadas dos postes de luz.

Parei próximo à praia e andei até o mar. Com os pés na água salgada, senti arderem as feridas abertas no caminho percorrido. O mar feria e anestesiava, morno também àquela hora da noite. Recolhia-se em ondas e levava, devagar, o pouco de energia que ainda havia em mim. Quando a onda voltava, voltava a ardência e fazia o corpo reagir.

Deitei na areia sob o céu aberto de verão. Sorri. Enxerguei purpurinas onde, antes, só via estrelas. Iguais aos pontos de luz que havia no asfalto. Pensei que poderia escolher, todos os dias, entre caminhar sobre o chão ou sobre o céu.

Nada mais me aborrecia. Não quis voltar para casa. Seria andar noutra direção, em que não havia mar nem música nem cor nem brilho.

Deixassem-me ali até passar o Carnaval…