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Sento com o amigo no bar em frente à praia e pedimos um chope para afastar o calor. Morando fora há tempos, ele quer matar saudades do bairro. Cansado da cidade, que me parece cada vez mais cheia de carros, mais desigual entre as gentes e mais quente, eu o atualizo sobre os problemas.

Nos últimos meses, eclodiram tantas crises no Rio que suas entranhas parecem expostas. Parte de um país imerso numa crise político-econômica, o Rio é como um microuniverso em que pode sentir-se de perto a pressão que está sobre a nação. Nem sei se um chope resolve o nó na garganta.

– Ah, mas tem isto! – diz, esticando a cabeça na direção da orla do Flamengo – Não resolve, mas distrai.

Dou uma risada.

– Você me fez lembrar de uma namorada que tive e que dizia: “para amar, é necessária uma certa abstração” – digo.

Na época, achei aquilo muito sábio. Guardei a frase.

Gostávamos de andar, notando os detalhes urbanos da orla, como o desenho dos prédios no outro lado da baía e o trecho em destaque da ponte Rio-Niterói. Íamos pela pista de corrida até o largo onde o Pão de Açúcar surge enorme, com a famosa falha na pedra imitando o desenho de uma íbis. Beirávamos as pistas de velocidade do Aterro, admirando-lhe os desenhos sinuosos e o contraste entre o asfalto cinza, o verde e o azul do fundo. Sob a sombra das árvores em direção à Glória, voltávamos para casa.

– Você me amaria se enxergasse tudo que sou? – ela me disse, na mesma ocasião, provocando-me com sua teoria.

Pela cabeça dela, desdobravam-se várias ideias. Que não tinha uma alma leve. Que, antes de sentar-se, tinha coberto a grama com a canga porque sabia que havia, por ali, gatos de rua em quantidade. Que vestiu um biquíni mas não mergulhou porque viu o esgoto desaguar no fim da praia. Que não era, afinal, espontânea mas estava, realmente, feliz naquele dia.

Entendi, então, que me pedia para que, mesmo que enxergasse seus defeitos, me mantivesse encantado por ela. Porque ela era capaz de amar o mar, mesmo se poluído. A brisa, mesmo se o gramado estivesse sujo. As crianças, as bicicletas, até os gatos! E sempre deslumbrava-se com o contorno das rochas no fim da praia.

Era uma história boba mas acabo entristecido, derretido em lembranças e suores na tarde quente. Sinto como se a beleza não compensasse mais os problemas. Tenho medo de ter desaprendido a amar. O amigo me resgata:

– É em todo lugar, cara. Não está fácil, não. É a crise.

– Nacional!

– Pô, mundial!

Depois do chope, hospedo o amigo no apartamento da Oswaldo Cruz.

Mais tarde, debruçados sobre a janela lateral da cozinha, gastamos as últimas palavras antes de dormir e vemos, na rua, as pistas iluminadas e vazias. Mas o verde e o azul do Aterro se cobrem de negro e a paisagem vira um borrão com a chegada da noite. Então, inesperadamente, sinto um encantamento. Porque sei que a beleza está ali, oculta, e que serei capaz de reencontrá-la e de reconhecê-la ao amanhecer. Na manhã seguinte ou numa outra manhã qualquer.