Liguei o computador e vi que ela modificou a foto do perfil. O cabelo arrumado, o sorriso sincero, o fundo azul sugerindo que ela se move em cenários de paz e tem a vida colorida. E porque sorria na foto, pensei que estava feliz.

Não adivinhei, contudo, que, no instante seguinte ao flash, ela desmanchou a expressão, limpou a maquiagem e recolheu-se, com a mente fixa na lembrança do amor perdido.

Não sabia que, num momento anterior, ele aparecera de braços dados com a nova amada, mais jovem, deslumbrada por tudo que nele, para ela, era história antiga.

Quando deitou-se, o olhar da jovem que dera o braço ao seu homem foi a lembrança mais doída, o que abriu uma fenda palpável entre seu passado e o agora. Ela já não era mulher de deslumbres, mas de admirar ou repelir realidades. Não era mais capaz de devotar a alguém uma paixão adolescente, embora fosse capaz de sentir uma compaixão que poucos são capazes de alcançar: o diagnóstico generoso e humano de que somos todos tão imperfeitos e tão frágeis que precisamos ser acolhidos por pequenos e constantes gestos de amor.

Ela não possuía aquele olhar em seu catálogo de emoções. Essa impossibilidade a torturava. Havia outros, calmos, angustiados, brilhantes de alegria, mas não aquele, repleto de uma inocência pulsante. Tinha cicatrizes e, por isso, seus gestos eram menos espontâneos.

Suas rotas eram previstas e controláveis. Assim, mantinha-se reta durante os dias, sorrindo, os olhos cansados disfarçados em sombra e rímel, a alegria favorecida por blush e batom. E ria-se ao final das frases ditas, mesmo que não lhes tivesse dedicado total atenção. Se, ao fim do dia, percebesse no peito algum incômodo, esperava a noite chegar, respirava profundamente, fazia orações e dormia.

Na manhã seguinte, repetia rotinas comuns. Estampava sua silhueta contra o fundo da parede da sala para atualizar a página da rede social, por exemplo. Escrevia mensagens de confiança para compartilhar com os amigos virtuais. Rabiscava desenhos de paisagens em tons pastéis, como se não as visse em todas as cores. Escolhia as músicas e as poesias que falavam dos sentimentos que ela, confusa, distinguia mas não conseguia administrar.

Entretanto, cruzar com o homem e a jovem a desestabilizou. Sentiu pulsar um coração diferente: com vigor, reativo, machucado e triste. Sentiu a perda do futuro que sonhara em seus braços, nos jantares que compartilharam, na cama que dividiram uma vez, nas promessas que se iniciaram nas noites seguintes. Só, então, percebeu que voltara a sonhar, a sentir e a pensar num futuro que subverteria seus hábitos, sem nunca ter dito isso a ele.

De nada disso eu sabia quando vi que mudara a foto de perfil. Por isso, enxerguei sua imagem com ternura e pensei em como é bom o som do seu riso, em como é difícil dispensar sua companhia. Lembrei-me da força com que estancou sua dor e correu na direção da sua felicidade há tempos atrás e de que eu fora testemunha de como isso foi difícil: para ela, ir embora não se tratou, apenas, de abandonar um amor mas todo um condicionamento de vida; de arriscar-se a, talvez, nunca ver-se recompensada com um novo amor ou nunca sentir-se num lar, pois partira sem ter para onde voltar.

Comentei sob a foto que ela estava linda e que adorava vê-la feliz. Como se ela pudesse, ao ler minhas palavras, perceber toda a intensidade com que as escrevia. Como se pudesse saber que eu sei que abraçar a vida lhe custa, permanentemente, o esquecimento dos sonhos de que precisou desvencilhar-se e que entendo por que isso a tornou arisca e incrédula.

Ela leu o que escrevi e me surpreendeu com uma mensagem àquela hora da madrugada: “Como amigo, me diz, você acha que sou esquecível? Que eu não poderia ser a escolha definitiva do homem que eu escolhesse?”.

Foi então que me contou o que lhe acontecera. Era tarde e adivinhei sua solidão. Pensei numa resposta que fosse sincera mas não a magoasse. “Você não é esquecível, é perfeita. Mas você não parece disponível”.

Mandou-me uma carinha com um beijo. Um coraçãozinho na ponta da boca da imagem. Pequenino, um ponto vermelho. Suave como ela. E deixou a conversa, transferindo sua angústia para mim.

Noite adentro, escrevi-lhe as palavras que lhe diria se ela não me escapasse: que não se dá conta da força que a sustenta diante daqueles que a tentam puxar de volta aos lugares antigos que a fizeram infeliz; que a confusão e a dor em que se encontra demonstram que não perdeu a capacidade de envolver-se nem de amar; que a vida não é colorida como sugere a foto mas aquele sorriso capturado é verdadeiro (não se pode fingir aquela energia); que não percebe o carinho com que os meus olhos repousam sobre ela; e que eu, ainda preso a laços irreais e sem coragem de rompê-los,  sinto que apenas posso sonhar tocá-la mas não tocá-la de fato nem fazer-lhe promessas.

Por acompanhá-la, sei que seus atributos são raros e aqueceriam qualquer um na rotina dos dias. Que sua ternura seria reconhecida na companhia das manhãs e nas mãos dadas diante dos abismos da vida. Mas, para isso, precisa deixar alguém aproximar-se a ponto de tornarem-se rotineiras as conversas, a amizade, o sexo, os gestos de carinho.

Esta era sua tragédia pessoal: como avança, desconfiada, na direção do desconhecido, usa armaduras para proteger-se e não emite sinais nem é sensível aos gestos mais ordinários em sua direção. Fecha a porta à dor mas também à alegria.

A minha tragédia é estar condenado, eu sim, ao esquecimento. Ser possibilidade invisível aos olhos da mulher que ocupa a minha tela e o meu pensamento, e, paradoxalmente, ser o portador dos sentimentos que ela procura.

Não dei enter. Li as frases escritas e as senti profundamente. Apaguei-as. Mandei-lhe, de volta, outra carinha com um beijo. E pus para dormir o amor, antes que raiasse.