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Diziam que o marido a tinha trocado por outra. E que, coitada, quando descobrisse, ela pensaria que pior do que fracassar era ser abandonada por uma dessas jovens de peitinho durinho. Iria, de certo, apontar a outra na rua, chamando-a de periguete, interesseira, feiticeira. Ou espalhar por aí que o marido entrara na crise da meia-idade e perdeu o bom senso.

Mas a verdade é que, quando encontrou o marido com seu novo relacionamento, por acaso, num restaurante no Centro da cidade, todos se cumprimentaram civilizadamente, mesmo ela entendendo, naquele instante, que o romance era anterior à separação. Mesmo reconhecendo o perfume deixado nas blusas que lavou até que o homem deixasse a casa.

Digo a você que, de fato, ela não se importou muito quando o marido foi embora. Sabe como é: onde não há mais paixão, não há mais indignação. Estava exausta dos anos de apatia. O homem vivia resmungando nas noites após o jantar. Deitava-se cedo para fugir do sexo. Dormia tardes inteiras de sábado para não precisarem conversar e sempre que ela achava a brecha para aproximar-se, roçando a perna dele com a ponta dos seus pés, ele a dispensava. Sem entender o porquê, tentava satisfazer as mentiras que ele inventava para enganarem-se, achando que, resolvendo os problemas, veria renascer o amor.

Lembra-se de quando ele inventou a história das toalhas? Disse que, como ela não trocava as toalhas durante a semana, havia sempre cheiro de umidade no banheiro e isso lhe tirava o humor. Por achá-la desleixada, não sentia vontade de tocá-la. Passou, então, a trocar as toalhas duas vezes na semana, sem nem questionar que ele próprio poderia fazê-lo já que se incomodava tanto. Passou a cheirá-las sempre pela manhã e a cobrir a roupa de banho com uma suave fragrância de flor quando lavadas, antes de guardá-las nas gavetas. Mais fácil resolver essa insatisfação do que criar polêmica com o marido.

Mas, como continuassem separados, ela insistiu nos motivos e veio a desculpa seguinte: eram os dias em que as crianças gritavam. Ah, o comportamento dos filhos impediam a libido, atrapalhavam o sono e a culpa era dela que não tinha pulso e não lhes dava limite. Sem questionar que ele próprio poderia impor os tais limites que achava necessários, ela quis proteger as relações da família. Passou a deixar as crianças no quarto quando o pai estava em casa, a frear-lhes na espontaneidade e a pedir silêncio, como se a casa fosse uma capela. No fundo, entretanto, achava triste vê-los caminhar na direção do pai para o beijo de boa noite, quietos, desconfiados das reações. Mas pior seria, achava, o homem entendiar-se e ir embora, deixando os filhos e a mulher.

Mesmo com a movimentação da casa sob controle, o homem não voltou a procurá-la. Ela afundava numa tristeza que só ela sabia: a de ser rejeitada diariamente, não só na cama mas no abraço de chegada em casa e na atenção pelas conversas. Então, na última vez em que ela teve coragem de queixar-se, ele lhe deu a desculpa definitiva: enjoara do seu cheiro, do cheiro dos seus cabelos, do cheiro do seu sexo, do cheiro da sua pele. Ela se desmontou e sentiu o fim quando a frase dele terminou. Sabia que os cheiros aproximam distâncias, antecipam-se ao beijo e ao roçar da pele no despertar do desejo. Contra a observação do homem que ainda amava, não havia argumento possível e sua autoestima não se preservou.

Lembra-se daqueles dias em que a encontramos por aí, meio desligada? A mulher andou triste. Sem ver saída. Perguntando-se se era possível fazer alguém apaixonar-se de novo quando a paixão acabou. Desafio difícil para os que partilham a intimidade. Não há mais mistérios. Não há mais nada a revelar. Adivinham-se os gestos, sabe-se o que funciona ou não, o que se gosta ou não. A tristeza dela foi virando um abismo para dentro de si. No início, doía tanto que ela mal conseguia respirar ou dormir. Doía a ponto de ela não controlar o choro no banho, no ônibus para o trabalho, à beira do fogão enquanto cozinhava ou mesmo quando abria os olhos pela manhã. Até que, num determinado dia, ela acordou e a dor tinha-se estancado. Não foi um alívio. Era mais uma anestesia. Era um não sentir – alegria ou tristeza; euforia ou dor; luto ou renovação. Era ser espectro de si, ouvir as vozes, ver as cores, reconhecer as faces mas o cérebro apenas reagir – só lembrar de piscar e de inspirar e de fazer a boca abrir diante do garfo e o corpo apagar quando o sono vem.

Eu ouvia de longe mas com nitidez: o homem começou a reclamar da ausência de mimos, dos longos silêncios, dos gestos mecânicos e da comida menos saborosa. Queixou-se de como ela falava baixo na hora de conter as crianças. Das coisas fora do lugar…que só faltava, àquela altura, ela ser desorganizada. Dizia essas coisas para ela, acredita? Depois de apagar a chama em seu coração! Mas não estava apática porque quisesse irritá-lo ou impor-se. Apenas não tinha forças, distraía-se muito, não percebia o dia chegar ao fim e, de repente, já era hora de deitar-se.

Então, num dia, ao abrir os olhos pela manhã, pensou que, como não podia mais sentir, não o amava mais. E a sua incapacidade de amar, veja só, a libertou. Sem amar o homem que a rejeitava, podia, com facilidade, rejeitá-lo também. No coração. Na mente. Sem dor. Mandá-lo para fora de casa. Não adiantaria ele jurar vinganças porque, como não sentia, não havia espaço para o medo. Nem adiantaria ele lembrar-lhe os momentos bons e os anos de cumplicidade porque, como não sentia, não havia compaixão. Muito menos ele dizer que estaria disposto a tentar de novo, que agora vira que não fizera o bastante, porque ela não sentia. Nada.

Foi assim que ele acabou deixando a casa. Os dias e as noites seguintes se passaram sem que ela desse falta do homem na cama, porque ele já se deitava quase na beira do colchão, com o corpo afastado do dela. Muito menos de seus comentários na hora do jornal porque, há muito, perderam o hábito de conversar. E nunca do abraço de bom dia, porque ele deixara de tocá-la e, havia anos, estava acostumada somente ao abraço dos filhos.

Você sabe como é…o tempo cuida de nós. O silêncio da casa foi-se quebrando aos poucos, depois que as crianças voltaram a espalhar-se pelos cômodos, com os brinquedos, as risadas e os tombos. Ela estendeu os seus pertences pelos espaços deixados nos armários, arrumando-os melhor. Pode separar a lingerie da gaveta de meias e pôr os vestidos em cabides distintos dos casacos. Comprou umas coisas novas: umas bijouterias, umas caixas, um amarrado de sachês e colocou lá.

E uma amiga foi buscá-la para uma noite de diversão. A mulher decidiu, então, gastar o dinheiro que guardara nos últimos anos. Economizado pelas viagens que não fez porque o homem decidiu que dava trabalho alimentar as crianças fora dos horários da casa. Poupado pelos teatros a que não foi porque o marido dizia que era perigoso circular à noite na cidade. Escondido no fundo da gaveta porque o homem, nos últimos meses, andava gastando demais com bebidas. Possivelmente com amantes, diziam, mas ela, naquela tristeza em que vivia, não enxergava. Parece até que não via novela e nem prestava atenção nos cochichos nas reuniões de família. Roteiro mais previsível não há do que “homem que deixa a mulher só pode ter novo amor”. Nem acredito que a história que lhe conto passa, também, por esse clichê.

Então a amiga a levou ao restaurante que sempre quiseram conhecer. E a vida, como eu dizia, é mesmo como nos filmes. Pois não foi lá, justamente, que se encontraram por acaso ela e o homem, acompanhado do novo amor? Surpreendeu-se: ele se desmanchava em olhares e sorrisos com um rapaz da sua idade. Distinto, calmo, flertivo. Crise de meia-idade, eu diria. Mas ela sabia que essas questões são bem mais profundas. Por isso, cumprimentou os dois, educadamente, ignorando o pequeno constrangimento.

Ela se admirou. Seu sentimento mais importante, contudo, era o de alívio. Alívio por não precisar da aprovação dele para o vestido que usava, guardado desde a última vez em que saíram e que se ajustava mais forte, na altura dos seios. Alívio por saber-se realmente livre da relação com ele e por poder sentir-se delicadamente sensual no tecido que contornava seu corpo. Alívio por saber que a invenção dos seus fracassos era mentira. Só depois daquele dia, apareceu quem quisesse contar-lhe histórias do amante: “virou-lhe a cabeça!”, “um escândalo!”, “quem diria?” E ela não prestou atenção. Porque isso foi, como disse, depois, quando antes não tinha mais importância.

Foi assim que me contaram: naquele dia, logo no primeiro dia em que ela saiu de casa e a verdade se revelou; naquele dia, em que ela queria experimentar a alegria e viu-se obrigada a encarar seus fantasmas, foi quando tudo começou a acontecer.

No restaurante, tocou sua música favorita. A mesma que ela dançava nas festas da faculdade, quando, caloura, tentava paquerar os veteranos que lhe sorriam. A que ela dançou várias vezes, em rodas com as amigas, sóbrias ou não, calçadas ou não, entre gargalhadas e sentimentos. Levantou-se e foi para a pista de dança, onde só havia casais. A amiga hesitou. Mas a mulher não esperou companhia. Estava solta: passou as mãos pela cintura, fechou os olhos, era como se a música atravessasse seu corpo. Mesmo discreta no canto do salão, ela se destacava mexendo braços, quadril, entregando-se ao ritmo. Ela estava ali. Qualquer um que a olhasse a enxergaria.

Depois – ela própria contaria -, sentiu que a música vibrava nela; primeiro na barriga, depois no peito. Que a sensação foi ficando mais forte e ela foi-se sentindo toda: frio no estômago, face ruborizada, seios livres roçando a roupa, pele macia em que a alça do vestido deslizou, gota de suór descendo pelas costas, cabelos chicoteando o pescoço, coração acelerando. Pele, pulso, vibrações. Ela se sentia e ao sentir-se, sentia tudo. Voltou a existir, assim, do nada.

Foi alegre para casa. Ainda sorria, mesmo com a noite alta. Correu com as crianças, que ainda estavam acordadas, perseguiu-as em volta da mesa de jantar até abraçá-las antes que alcançassem o quarto. Dormiu de lingerie. Fez ovos no café da manhã. Foi de salto alto para o trabalho. Andou descalça sobre o canteiro da praça, sentindo a umidade e o perfume do gramado. Sorriu ao porteiro. Virou assunto entre os vizinhos que lhe percebiam a transformação. Ria-se com a TV. E a vida era a mesma e era para continuar a ser monótona, eu acho. Mas ela a acha mais clara, sente o vento, os cheiros, desperdiça horas com os preparos da comida que porá na mesa, com os cabelos antes sair, com a casa quando recebe os amigos. Continua assim, vê? Sempre sorrindo e lendo na varanda, à noite, as pernas para cima, depois que as crianças dormem. É de estranhar-se que, tendo sido abandonada, não a encontremos triste pelos cantos. Que não ande por aí amargurada de solidão. Que dispense os pretendentes que lhe surgem. Outro dia mesmo, recusou-se a sair de novo com um rapaz só porque ele lhe pediu que não usasse roupas tão justas. Pode uma mulher abandonada, já com filhos, na idade dela ser cheia de critérios? É muito risco que se corre, mas não serei eu a dizer-lhe. Não sei, não, mas, depois que descobriu a traição, acho que virou a cabeça, coitada. Deu para ser feliz sem motivo. Pode?