Ontem o dia era cinza

Ontem era cinza o dia o céu sobre mim o asfalto sob os passos as esquadrias da janela na sala em que estava.   Cinza. Mesmo sem nuvem. Sem som. Só a memória da notícia que chegara e desbotara o presente.   Choveu transparente forte. Incômodos os pés alagados, fria a calça contra a pele […]

lembrança

Não foi real embora chegasse a tocá-lo. Não existiu: ninguém o viu, nenhum dedo o apontou. Mas cresceu, como se fosse rosto reconhecido, voz identificada. Me escapou, como os sonhos, quando despertamos; as dores, quando nos enebriamos. Ficou o sentimento do dia em que me iluminei, em que o beijo que, dizem, não beijei me […]

passageiro

O mundo ficará quando eu partir.   Para onde vou não sei se me lembrarei do que vivi naquele parque, aqui.   Para onde vou talvez nem leve registros – se tudo acaba, se vai o que sinto, não sei.   Sobra apenas incontestável verdade: o mundo permanecerá.   Mudança após mudança, se reinventará.   […]

estranho-te

Estranho teu silêncio.   Tua voz dialogava com as imperfeições da minha alma, meus pensamentos ruminantes e  fracas aspirações   –  era uma ponte para um lugar que era bom ocupar.   Acariciavas-me, mais, quando tocavas o espírito desgarrado de mim   – desamparar-me o espírito foi teu gesto pior!   Passo a limpo o […]

mortalidade

Passa. Tudo. Amor. Saúde. Alegria. Dor. Sabemos: passa. Ciclos se fecham. Pessoas se vão. Idéias morrem. Até lugares, paisagens, mudam. Por que, então, chorar a perda, se inevitável é mudança? Por que ausência traz tristeza, vazio, desamparo? Os que amamos, mesmo sem profundidade, quando partem, nos reduzem, nos recordam a mortalidade e nos quebram corações.

alguém que lhe beije as feridas

(Porque me contaram, de forma lírica, que Cuddy beijou a perna danificada de House) maquiagem riscada sobre a pele também roupa cobre lingerie sobre a pele protege carne oculta músculos, órgãos, ossos, sangue, casca sobre alma memórias soterradas. da vivência do espírito, dos pensamentos da mente, do sentimento que os antecede, mais atrás se esconde […]

aniversário

Nenhuma programação. Nenhuma palavra. Nenhum carinho. Nenhuma luz se acende. Nada corta o silêncio. Nada quebra o instante suspenso do dia que passa. Pena nenhuma, nem dor nem alegria. Nenhum sentimento. Nada há.