beijo

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Vivera presa a garantias.

Mas, nessa noite, a ternura era urgente. A vida se desmontara e suas expectativas apontavam para o exílio após a dura semana que enfrentou.

Portanto, permitiu a aproximação, mesmo desconhecendo os movimentos seguintes. Como não havia outro lugar em que quisesse estar, não havia angústia. Seu lugar era ali, àquela hora, até que a hora passasse.

O beijo foi só a percepção do beijo. O gosto da língua. A textura dos lábios. Sem significado profundo. Não inspirava promessas.

Passada a hora, ela sairia. Chegando o táxi, ele partiria. Enquanto esperavam, o tempo se estendia e o corpo era sensações: pele na pele, mão nas costas, língua úmida no pescoço, mão no cabelo, coxas encaixadas. Sem elocubrações. Só registros mentais do que vivia.

O toque carinhoso fora a pausa para respirar. Não se importava se hoje ainda ou décadas à frente seria o ponto final para aquele sentimento. Tudo acontecia naquele momento. Começava no roçar das línguas. Acabava quando os lábios descolavam. E recomeçava porque ainda havia tempo até o taxi chegar.

Não precisaria justificar-se. Ao sair dali, se não a contasse, a história nem existiria. As possíveis testemunhas não lhe prestavam atenção. Não conhecia a moça que servia as mesas nem o senhor que dedilhava o violão diante da garrafa de cerveja. Não frequentava o bar, não passava naquela rua, mal sabia sobre o homem com quem conversara por tempo suficiente para que lhe ofertasse esse carinho.

Cúmplice e alternando sorrisos, estava imersa na simplicidade dos seus sentidos. E, de olhos fechados, notava: cheiro, saliva, respiração, queixo arranhado pelo cavanhaque dele. Só. Sem perspectivas. Sem fim de noite, cinemas nem altares.

Respirava. Movia-se lentamente. Sentia. A consciência aguçada comprovava a sua presença no mundo.

O gesto de desprendimento a potencializou, alterou-lhe a estima e restabeleceu a segurança perdida. Dissociado de tudo, revelou-se, essencialmente, puro.

Voltou inteira para casa: pés tocando chão, vento balançando franja, calor fazendo corpo sofrer e suar, buzina ferindo ouvidos. Já não era espectro, alma delicada, olhos sombrios. Materializou-se. Carregando em si toda a substância humana, existia. Discreta e plena.

o altar

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Terminado o cortejo, correram até a porta da igreja, fugidos da chuva forte que encharcara-lhes as roupas. Refugiaram-se no hall da nave.

Contrariada por ter que desviar-se do caminho de casa, onde encontraria a pausa necessária após o exaustivo dia de pêsames, Elisa se separou do grupo formado pelos que se abrigaram ali. Caminhou em direção ao meio da igreja, entretendo-se com as imagens dos altares santos.

Luís só percebeu que ela se afastara, quando, olhando para o interior da igreja, viu uma mulher enxugando o rosto num lenço branco diante do altar, como uma fiel diante de Deus – na verdade, ela, secando-se.

Como prendera os cabelos num coque improvisado e tinha as roupas coladas ao corpo, adquiriu um ar frágil naquele lugar cercado de silêncio e penitência. Examinava-a, comovido pela cena que se formara involuntariamente, consciente, entretanto, de que o lugar em que estavam sugeria muitas emoções.

Sentou-se a seu lado e tentou continuar a conversa que o temporal interrompera, oferecendo atenção à amiga que lhe narrava os momentos finais da vida do irmão, após o ineficaz tratamento. Mas ela desconversou, distraída na observação dos trançados dourados do púlpito, cercados dos desenhos talhados em madeira, que eram simétricos e tão cuidadosamente elaborados que chegou a pensar que era o mais próximo que chegaria nessa vida à admiração de uma obra perfeita.

Luís sentia fortemente o cheiro cru que a chuva fazia brotar do asfalto, da terra das árvores em volta da igreja, dos veludos umedecidos das imagens que se posicionavam sob uma goteira num altar secundário. Era como se a alma do mundo brotasse das entranhas da cidade, cercando-os com sua energia morna e o aroma bom de terra e folhas,

Elisa pôs a mão sobre seu braço e sem virar-lhe o rosto, disse-lhe:

– Vê?

Olhou na mesma direção que a amiga. Havia um altar lateral cuja figura central era a cena da cruficifação de Jesus Cristo. Reagiu:

– Toda igreja católica possui uma imagem de Cristo pregado na cruz.

Ela o interrompeu:

– Não! O outro Cristo!

Ele, então, prestou mais atenção nos componentes do quadro: aos pés de Cristo crucificado, estavam Maria e João; diante dele, o próprio Jesus em pé, observando a cena, com uma mão sobre o peito.

Perdeu-se um minuto admirando aquele retrato, embaralhando os pensamentos  com o que a amiga vivera até a hora anterior. Enterneceu-se e calou-se. Emocionalmente cansada por cuidar do irmão nos últimos meses de vida, a amiga também percorrera, ao lado dele, sua própria via crucis.

– Lindo! – disse a mulher – Que acha?

Luís não era religioso. Em algum momento de sua criação, internalizou que havia Deus mas nunca se preocupou, de fato, com isso. Bastaram-lhe as missas dominicais da infância. Dispensara-se do raciocínio acerca das grandes questões existenciais, buscando, apenas, o conforto de uma vida sem muitas surpresas nem muitos riscos. Queria dizer algo mais reconfortante à amiga, mas faltava-lhe esse entendimento. Foi sincero:

– Vejo um homem – disse, surpreendendo-a.

– Como?

– Vejo um homem que pára e olha para seu sofrimento; que se posiciona fora da situação que o maltrata, avaliando-a a partir de uma outra perspectiva. Toma-se de compaixão por si. Por isso, traz a mão ao peito. Recompõe-se. Por isso, possui o semblante amoroso e a aparência restaurada. É preciso compreender sua angústia para seguir adiante. Só assim, liberta-se da dor e segue em paz.

Luís sempre a comovia com seu pensamento bruto. Embora possuísse facilidade para enxergar profundidade nas coisas, sempre partia da concretude delas.

Ela se recolheu. A imagem lhe sugerira várias explicações religiosas. Entretanto, como o amigo lhe empurrara uma leitura humana, esvaziando o ânimo de uma rasa discussão teológica, apenas disse-lhe:

– Não importa a religião, percebe?, para que a presença do “segundo” Cristo grite para nós a transcedência do espírito. Posso pensar que é, apenas, mero recurso para materialização dessa idéia ou posso entendê-lo de uma forma bem específica, conforme a crença que professar…

Ambos mantinham os olhos fixados na imagem e ela concluiu:

– Já não importa, amigo, se transcendemos através do pensamento ou do que há em nós de divino. Importa, apenas, que transcendemos, certo?

Elisa se levantou, deixando-o para trás, e pôs a mão nos pés da cruz, espelhada na imagem de João. Tinha as sobrancelhas unidas no centro da testa num gesto de contrição.

Luís percebeu que, para a assimilação da dor recente, seria bom aproximarem-se as idéias:

– Talvez seja na força do homem que esteja a transcendência; não em seu corpo físico, mas em sua alma – disse, sabendo que a agradaria.

Estiou e as pessoas esvaziaram a entrada da igreja rapidamente. Mas a movimentação ruidosa da gente para ganhar a rua não lhes desviou a atenção – estavam juntos, num mesmo momento, na mente e no coração.

Seguraram o instante, emocionados, até que o vigia lhes avisasse que a igreja seria fechada, impulsionando-os a voltar a casa. Embora alguns postes estivessem sem luz e houvesse largas poças no chão, retomaram seus caminhos, levando no peito a prece que ensaiaram, em silêncio, diante daquele altar.

(O texto é ficção mas o altar existe, na Igreja de San Telmo, em Buenos Aires, Argentina.)

mergulho em Porto

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Ausentara-se da praia nos últimos anos, evitando o desconforto do chão irregular ou de sair à vila com os pés sujos de areia. No reencontro dessa tarde, disfarçou pegadas, arrastando os pés para apagar os caminhos que, involuntariamente, desenhou na direção do mar. Entrou na água, então, deixando a onda passar e erguê-la por instantes, já numa tensa observação da outra que se formava mais atrás.

Justamente ela, que se protegera da claridade dos dias, caminhou sem óculos nem chapéu naquela tarde ensolarada e decidiu conhecer o alto mar, depois de um homem apontar-lhe o horizonte com promessas de beleza, vendendo-lhe o pacote para o batismo de mergulho.

Aceitou o desafio e navegou de jangada até um ponto específico. O mar estava verde e turvo, resultado das chuvas dos últimos dias. Trazia o coração à flor do peito e a cabeça acelerada em ponderações.

À beira da embarcação, o instrutor lhe ensinou a respirar sob a água, além de alguns sinais básicos de comunicação. Falava pausadamente, acalmando-a com sua expressão serena e a segurança dos muitos anos na profissão. Mas ela estranhava o peso do cilindro de oxigênio, demorava a adaptar-se ao aparato de mergulho, mordia intensamente a vedação da passagem de água como se, até na superfície, pudesse afogar-se. Repassava, confusa, os sinais aprendidos e quase desistia até que outro iniciante voltasse à tona com um sorriso de encantamento, recompensado pela experiência que, mesmo temendo, ela queria viver.

O instrutor a tomou pela mão abruptamente, mergulhando seu rosto na água. Foi-se acostumando ao exercício novo de respiração, sentindo tornarem-se leves, dentro da água, os pesos impostos ao corpo para a aventura. Mas hesitava em avançar. Diria ao instrutor: “não me solte a mão”. Se pudesse, repetiria, ainda, num tom doce e frágil, “não me solte”, porque no percurso até o mar tantas mãos não se firmaram como apoio. Pediria sem pronunciar palavra, como alguém que suplica a um deus um milagre de cura. Perdera-se em terra, não podia perder-se no mar.

Ele não a soltaria nem uma vez. Por isso, avançariam metros em direção ao fundo do mar, enquanto ele lhe apontava os corais cheios de vida.

Ainda administrando respiração e nervosismo, deparou-se com peixes que saíram furtivamente de um coral. Iam e voltavam das pequenas cavernas, curiosos, destemidos e permanentemente agitados. Faziam um risco colorido a sua frente e fantasiava que poderia ouvir-lhes a alegria não fossem tão altos os sons da respiração e do batimento cardíaco. Estendeu-lhes a mão livre mas, ainda assim, não os tocou, com medo de que o gesto os assustasse. Os peixes nadaram entre seus dedos, ao seu redor, aproximaram-se da máscara de mergulho, dando-lhe a impressão de que era ela quem estava no lado de dentro do aquário.

Estava no meio do nada. À volta, estava cercada de paredes esverdeadas que não existiam. Dissipavam-se pelo mais tolo movimento de braço. Do alto, os raios de luz desciam em sua direção, fragmentando-se, cercando-a com uma aura. Como se tudo não fosse tão espontâneo mas profundamente estudado, estava no foco daquele ponto de luz.

Perdera-se nesses pensamentos e sentiu-se desprendida, solta no meio do oceano, sem afundar nem emergir, sem pressa. Até que o instrutor lhe fez um sinal de OK que ela retribuiu – era uma pergunta e uma resposta. Comunicaram-se! E, por um instante, a despeito do medo e do risco, ela riu-se, ciente do privilégio que vivia: avizinhar-se da vida que agita e colore o mar silenciosamente; sentir o silêncio que se impõe, escutando os movimentos sutis do próprio corpo; ser um ponto negro no oceano que decompõe os raios solares num cristal de água e sal.

Se fosse um pouco maior a emoção, talvez nem conseguisse respirar – o medo ia e vinha, cobrando-lhe foco nos sons do cilindro e os olhos grudados na luz que indicava a direção da superfície. Mas o que sentia era grande, misturava a superação do seu temor com o testemunho da beleza pura e simples, que existe no mundo como presente do Criador – quando a tocamos, parecemos tocar a ponta de Seus dedos.

O homem lhe puxou delicadamente na direção da jangada. Ela se deixou levar, exausta da respiração, exausta da emoção, batendo as pernas com cuidado, resguardando de um gesto brusco os corais que se abriram em alegria diante dos seus olhos.

Nunca mais olharia o mar da mesma forma. Nunca mais se esqueceria que conjugou, num instante, toda a sua fragilidade e toda a sua coragem. Que, seres enormes, somos, como os peixes, apenas pontos no oceano que nos abriga. Que, mesmo pequenos, podemos ser espectadores da vida que se abre repentinamente em espetáculos para nós, manchando de cores a água turva que nos cerca. E que, mergulhados, ficamos mais leves, mais livres, batemos os pés e avançamos, ainda que carreguemos nos ombros mais peso do que supúnhamos poder suportar.

Porto de Galinhas, julho de 2013

lembrança

Não foi real
embora chegasse a tocá-lo.

Não existiu:
ninguém o viu,
nenhum dedo o apontou.

Mas cresceu,
como se fosse
rosto reconhecido,
voz identificada.

Me escapou,
como os sonhos,
quando despertamos;
as dores,
quando nos enebriamos.

Ficou o sentimento
do dia em que me iluminei,
em que o beijo que, dizem, não beijei
me acendeu,
como se nas veias corresse luz.

E me levou
a um lugar que não há,
à sombra
da lembrança que esmorece
mas da qual renasço
de tempos em tempos,

porque
o que se sente
sempre vive além,
ainda que morto
no instante anterior.

sobrevida

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O meu amor deveria ter morrido quando o mataste.

Mas cerca-me à beira da cama quando deito-me para encerrar o dia.

Mesmo abrigado à sombra dos encontros inesperados, contraria-me, acende-me a face e, quando tudo silencia, volta-me em doces memórias.

Tu me deixaste o sentimento que fui obrigada a estancar.

Guardo-o discretamente em mim e, à noite, deixo-o repousar sobre a cômoda, enquanto espero o sono chegar. Porque não posso superá-lo.

Mas como não tenho a quem entregá-lo, endurece em meu coração.  Como o leite da nutriz que, em excesso, empedra se recusado, machuca-me o peito com suas pontas finas.

E, sem que saibas, tu ainda me feres constantemente.

Porque o amor que semeaste cresceu e já não me cabe de volta nas entranhas. Dilatou-se quando me tocaste, abrindo espaços que preenchi com sonhos: de que novos encontros viriam, de que as promessas se cumpririam, de que eu repousaria os lábios sobre teus olhos e tu, a boca sobre meu ouvido, ao final dos dias que atravessaríamos sós.

Como criança nascida já não cabe no útero materno, meu amor não se recolhe facilmente, sem que seja mutilado. De nada adiantou, pois, a tua sentença de morte.  Pois as lembranças ainda persistem nas noites frias e não se perdem, mesmo quando as deixo fugir sem seguir-lhe os passos.

Quando, então, a saudade que sinto é intensa, imagino-te sobre a cama, beijando-me os pés, a virilha e o ventre, deitando sobre mim delicadamente. E tua falsa presença me conforta.

Não abro os olhos para que possa manter-te entre as paredes do quarto.  Não deixo correrem as lágrimas que selariam a melancolia do instante.  Não me mexo. Para que continues existindo em mim, sequer respiro.

E então, toda a dor acalma, todo o vazio se preenche.  Abraço os travesseiros e durmo, frágil e perdoada por imergir em ilusão. Porque ainda pior do que iludir-se é ser incapaz de acreditar – é negar a um amor a chance de existir.

a beleza de beatriz

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Beatriz  é uma mulher linda.

Mas para que se possa  perceber-lhe a profunda beleza, é preciso estar  perto quando, chegando em casa, ela tira os sapatos ainda na sala e caminha com graça até o banheiro onde se despe para o banho.  É preciso descobrí-la após a limpeza do rosto e sob os cabelos revoltos, soltos do coque que os protegia da água.

Observando-a vestir a camisola negra de rendas, escolhida displicentemente,  sobressai-se muito da naturalidade de Beatriz.   Sem os disfarces de make-up, seus olhos  brilham,  ofuscando as olheiras que se preocupa em disfarçar pelas manhãs.  Cheios de curiosidade, fixam-se na televisão, nas páginas de jornal e na expressão de quem lhe acompanha até o fim da noite.

Há uma suavidade na voz de Beatriz, que não se destaca de forma óbvia.  Ela não soa especial. Não lhe dê qualquer canção para entoar que, inclusive, desafinará as notas mais básicas. Mas é doce ouvi-la  à noite, enquanto enrola na ponta do indicador os cabelos ainda desajustados, narrando a rotineira conjugação das horas do seu dia.  Hipnotiza o ouvinte e, involuntariamente, desvia-lhe a atenção até o contorno dos seus lábios, fazendo-o imaginar os sussurros possíveis nas horas em que estiverem a sós.

Nesse ponto,  nota-se-lhe  a textura da pele, que parece coberta de uma camada muito fina, aveludada, de um creme qualquer. Mas que, num contato mais íntimo, é só pele.  Podem-se sentir até pequenas asperezas, um arranhão cicatrizado de um ferimento recente ou uma alergia na palma das mãos que serão lembrados apenas pela maciez. Porque ao alisar seus braços, pernas, seu rosto é embriagante assistí-la desfolhar-se diante do espectador.

Ela é uma mulher que não se destaca na multidão com que nos misturamos no dia. É sutil, quase imperceptível. Exceto quando sorri na sua direção, esgarçando os lábios numa alegria que a inunda e que desperta no outro felicidade por fazer-lhe desabrochar  por um instante, no meio do dia, repentinamente.

Por isso, sua beleza não notam os distraídos.  Quem só olha sobre a superfície, passa por ela sem modificar-se. Mas ao mais atento, a mulher se destaca. Sua profundidade escorre na fala mais simples, envolvendo o outro em enredos desconhecidos.  E  sobressaindo-se heroína das histórias que narra, impossível não perceber sua potência,  nem desviar a atenção do desenho dos detalhes do seu corpo, discretamente cuidado.

Sua beleza  só alcança quem chega suficientemente perto a ponto de ela tocar-lhe os cabelos com suas mãos longas, trançando-os entre seus próprios dedos, aninhando-se, confiante, no peito do escolhido. Só quem chegar um pouco mais além, admirando-lhe a generosidade e implorando-lhe sua íntima atenção,  pode fazer o coração dela dilatar-se em amor e intensidade.  E fazê-la desenhar-se, única, à sua frente, em detalhes que jamais serão encontrados em outra mulher.

amigas num café

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Sentadas na mesa do café, as amigas estavam em silêncio. Carolina tinha os olhos perdidos na rua, olhava sem profundidade as cenas que aconteciam na porta do café, na travessia da esquina, a cabeça esvaziada de sentidos.  Ana fixava-se no rosto da amiga, que era uma mulher bonita mas trazia, naquela tarde, uma inexpressividade enorme, a pele sem maquiagem, o olhar triste. Observando-a, tinha vontade de sair e deitar-se em casa para um cochilo pelo resto da tarde porque a tristeza da amiga lhe esvaziara as energias.  Mas sabia que tinha que ficar. Ainda que ambas estivessem quietas, ainda que nada se resolvesse, tinha que estar ali – soltar-lhe a mão naquele trecho do caminho era, no mínimo, cruel.

Carolina enxergava as vitrines da loja em frente, espalhava seu desinteresse sobre as roupas coloridas de verão, imaginando que viajaria ao encontro da estação, mesmo estando ainda no inverno, para um mergulho no mar. Iria para o nordeste do país, decidiu num instante, traçou um frágil roteiro mental e esqueceu-se dele, lembrando-se do sonho que tivera noites atrás.

Ela estava num resort, andava em direção à praia, cujas águas eram verde-claro e a areia branquinha, fina, onde seus pés pisavam com suavidade.  Via o amado de longe. Ele estava sorrindo, entre amigos, e não a via. Por algum motivo inexplicado no sonho, eles não se aproximaram. Ela o via ao longe, vê-lo já a deixava feliz porque ele estava feliz. Mergulhava em águas mornas, sentia-se bem, confortável, a claridade era absurda, as cores do mar, da areia, dos biquínis se sobressaíam artificialmente como num desenho animado.

Uma lágrima rolou em seu rosto. Embora sua expressão não se alterasse, ela chorava, não reconhecia na vitrine a alegria que experimentara no seu verão imaginado. Ana passou-lhe a mão pelos cabelos e ela voltou-se para a amiga.

Ouviu Ana elogiar-lhe a beleza física, a pureza dos sentimentos. Sentiu-se inutilmente confortada. Carolina possuía uma racionalidade bem construída. Mesmo na dor, tinha certeza das coisas que lhe acontecera, tinha certeza de quem era, dos momentos em que suas atitudes foram vacilantes e das vezes em que o amado lhe escapou, propositalmente.

Mas as certezas que tinha não construíram o conhecimento necessário para entender todos os porquês que estavam na sua cabeça.  Mesmo sabendo que alguns jamais pudessem ser respondidos – afinal, a vida é preferencialmente ilógica -, afligia-lhe mais, naquele momento, a sensação definitiva do fim.

Ana dizia à amiga coisas boas de ouvir-se quando se está perdida de sua autoestima, jogava a maior parte das culpas sobre o outro, aliviando-lhe de alguns erros cometidos no caminho.

Mas o que Carolina não conseguia dizer à amiga, deixando apenas rolar novas lágrimas, era que, àquela altura, nada poderia consolá-la. Justificativa alguma estancaria a dor profunda em sua alma.  Nesse momento, só se destacava a certeza mais dolorida de todas: ele se fora.  E a desesperança de reconquistá-lo e de voltar a ser amada quebrou-lhe em muitos pedaços, que já haviam sido remendados em razão de outra desilusão amorosa. Ainda estavam frescos os reparos quando ele entrou em sua vida, ocupando espaços ainda maiores. O que a feria profundamente era a inegável verdade que nunca mais poderia beijar os lábios ou sentir a maciez do homem que ainda amava, já esquecida do exato tom da voz que lhe sussurrara as palavras que, para sempre, carregaria na memória de forma doída porque, hoje, esvaziavam-se todas de sentido diante da opção feita pelo amado.

Diante da decepção sofrida, ele lhe escapara integralmente. Não lhe sobravam sequer suas fantasias que, muitas vezes, alimentaram-na nos dias difíceis e nas noites de carência.  Agora, imaginar-se ao lado dele despertava-lhe tristeza, quase um desespero, era preciso abortá-lo até de seus sonhos.

Era o que Ana não entendia porque não seria capaz sem a profundidade dos sentimentos que tinha Carolina. Mas, por saber-se limitada nos poderes de sua amizade, Ana apenas trocou de cadeira, deitou a cabeça sobre o ombro de Carolina e calou-se, segurando a mão direita da amiga.

Ficariam assim por muito tempo ainda: Carolina com o queixo apoiado sobre a outra mão, olhando a rua e chorando num silêncio que era quase um não chorar; Ana lhe segurando a mão para que não escorregasse inteiramente para dentro de sua dor. Depois seguiriam para suas casas, cansadas, descrentes mas estranhamente fortalecidas, ao menos até o fim daquela noite.

insônia

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Passara um ano sem dormir direito. Um ano. Rolando na cama, aconchegada entre os travesseiros que, no meio da noite, sufocavam-na. Dizendo aos amigos que as enormes olheiras disfarçadas sob a maquiagem eram da rotina apressada ou, talvez, de uma pequena anemia – comia mal porque o trabalho lhe exigia.

Passara-se um ano e todos os seus dias eram comuns. Deixava as crianças na casa da avó antes de ir trabalhar, comprava no mercado os produtos que faltavam em casa no final da tarde, esmaltava as unhas na sala enquanto assistia à TV, debruçava-se sobre os deveres de casa dos filhos e encerrava a noite tomando um leite morno na cadeira da varanda, em silêncio.

Vivia cada pedacinho da sua rotina com concentração, dedicada a manter as coisas no lugar em que estavam, como se qualquer parte faltante pudesse fazer desmoronar algo sobre ela. Sabia-se instável, protegida por uma fina camada que lhe cobria a alma e que poderia trincar-se, caso lançassem em sua direção alguma verdade pontuda.

E o que lhe tirava o sono era desconhecido mas parecia-lhe irremediável. Não sabia o que lhe faltava enquanto se sucediam os dias, por mais seguros que fossem. Entretanto, algo a pressionava contra as paredes do quarto na noite silenciosa, fazia pesar sobre seu corpo o lençol de algodão. Levantava-se, checava o gás e as torneiras. Cobria os filhos no quarto ao lado, beijava-lhes a face tenra, sentia-lhes o cheiro. E acalmava-se.

Pela noite afora, no entanto, sentava-se sobre seu peito um corpo etéreo, imaginado, uma presença não reconhecida. Estava presa a essa sensação eterna, incurável. Que, algumas vezes, assaltava-lhe também durante o dia, embora, pela manhã, fosse mais fácil dispersar-se entre os muitos afazeres, esquecendo-se até mesmo de si.  Na maior parte do tempo, seguia leve, sequer notava o mundo à volta até ver-se envolvida num abraço aos filhos na porta da escola na volta para casa.

Numa noite, surpreendeu-se: faltava-lhe o futuro! Aquele que ainda não há mas que certamente se concretizará. Pois já falamos dele com os amigos no intervalo do almoço. Já contamos com ele quando equacionamos as despesas do mês. Já o discutimos antes de dormir, na mesa do jantar ou na cama nos instantes que antecedem a inconsciência. O futuro que imaginamos desde o momento primeiro. Que no primeiro beijo faz nascer o desejo de amar. Que na primeira viagem faz nascer o desejo de desbravar a vida. Que nos primeiros sonhos em comum faz erguer a casa e a família a construir.  Faltavam-lhe as realizações do futuro que não chegaria, que foi interrompido quando o amor partiu: a casa de campo que alugariam por longas temporadas para receber a família, os lugares que conheceriam juntos, os altares que dividiriam nos casamentos dos filhos, as festas em que dançariam sob o olhar carinhoso dos amigos da vida inteira quando já fossem de toda a vida.

Apavorou-se por ver-se tão enraizada no que fora apenas um sonho que nunca existiria de fato.  Mas cuja ausência era avassaladora. Sem ele, não havia motivos para poupar o dinheiro com o qual realizaria as pequenas ambições materiais que tivera.  Nem era necessário manter-se jovem e alegre para ainda ser notada, ainda dançar, ainda ser amada. Nenhum esforço se justificava pois tornara-se incapaz de visualizar-se naquele futuro, embora tivesse passado anos preparando-se para vivê-lo. Despojada dele, sentia-se medíocre no momento em que não tinha outro para por em seu lugar. E talvez nenhum gesto fizesse sentido, talvez nada efetivamente importasse no presente.

Desmontou-se profundamente entre esses pensamentos e perdia-se em sua angústia quando a filha bateu à porta do quarto, abraçada à boneca, pedindo ajuda para manterem-se, ambas, aquecidas no abraço da mãe.  Apertou-lhe contra o peito, salva sob as cobertas, encolhendo-se no canto da cama para acomodar junto o filho menor que acordara de um pesadelo e também procurara abrigo.

Abraçada aos filhos, percebeu que não houvesse futuro agora, um novo haveria, com projetos que ainda não era capaz de elaborar. Por enquanto, então, ficaria aninhada na vida que construíra, ainda que perdidas umas peças, passando por cada dia com vagar e por cada emoção cuidadosamente. Presa no presente, modificada, mas onde a maioria das coisas ainda lhe eram familiar. Até o dia em que, recuperado o sono, acordaria e ousaria voltar a sonhar.

do amor que se perde sem virar carinho

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A gente não percebe o amor

que se perde aos poucos

sem virar carinho

(Nando Reis)

Parecia-lhe um desperdício entregar a outro a ternura que reservara para ele.  Por isso, esperou mais uns dias pelo telefonema prometido ou por um SMS, alternativamente.  Mas nada se alterou.

Até saírem, antes, observara-o de perto.  Analisou se o interesse permanecia diante de suas primeiras recusas e se o flagrava olhando em sua direção quando estavam em rodas diferentes.  Aceitando o convite, percebeu que ele planejava um tímido futuro – um telefonema no dia seguinte, uma dica de viagem para quando tirassem férias, irem juntos a um compromisso comum de trabalho meses à frente, pequenas coisas que lhe sinalizavam a segurança de render-se a um homem que não queria nada casual.  Ele parecia querer ficar a seu lado, ainda que despretensiosamente.

Quando, enfim, ficaram juntos, embriagada pela noite de carinho, não enxergou os novos sinais.  Ele a colocou numa condução a caminho de casa, porque era tarde, havia trabalho pela manhã.  E como beijara-lhe demoradamente e elogiara a noite, ela acreditou que se encontrariam de novo na semana seguinte.

Mas aceitou desmarcar o encontro quase na véspera, pois ele lhe apresentou uma boa desculpa e, até que se calasse de vez, trocou torpedos de saudades e listou impossibilidades de horário.  Como os gestos foram lentos e delicados, ela demorou a perceber que ele partira de vez.

O tempo passava e ela ainda recusava novos interesses, não porque ainda tivesse esperança.  Já distribuíra os fatos numa lousa mental, racionalizando a situação.  Reavaliara palavras, gestos, mesmo os mais positivos, e concluíra que ele não voltaria.  Mas como atrás da esperança há sempre a ilusão, perguntava-se se o destino não lhe reservaria uma outra chance de cruzar com ele nos corredores por que já não passava, num dia em que sorriso, olhar, cabelo, maquiagem, vestido e perfume lhe fizessem parecer de novo atraente aos olhos do homem por quem se apaixonara na primeira e única noite de amor, fazendo-o perguntar-se se não era desperdício ter negado a ela os carinhos que merecia.

Eis o motivo dos atrasos no trabalho.  Todos os dias – qualquer dia poderia ser o dia – ela se demorava em escolher os detalhes acessórios da sua perfeita aparência.  Mas enfraquecia-se, após saltar do elevador no andar que ele nunca visitara e assistir as horas correndo em silêncio.  Ainda assim, mantinha o corpo pronto, carregava sempre numa bolsa uma lingerie reserva, um gloss e uma sombra mais escura, para uma saída à noite.

Começou a escrever-lhe mensagens na tentativa de despertar-lhe saudades. Amorosas. Sempre verdadeiras, sempre saudosas.  Dava pra ouvir-lhe o riso nos mínimos textos alegres ou reconstruir as situações que descrevia.  Ele era um homem sedutor, respondia-lhe com gracejos e, depois, com objetividade – com educação, mas sem carinho.

Por essa razão, muito tempo depois, sem que ele estivesse em sua vida, como de fato nunca estivera, sem que ninguém os tivesse visto juntos nem recebido de um dos dois qualquer confidência sobre o outro, ela se sentou no banco do carro, depois do trabalho, e chorou como seria normal chorar na manhã seguinte em que fora rejeitada por ele e por todos os homens que já amou.  Chorou ao perceber que possuía em suas fantasias elementos mais concretos do que sua própria realidade.

Como não aprendera a reconstruir-se, demorara a admitir-se quebrada.  E mais se fragmentara tentando juntar as partes que se romperam bem antes, na intenção do amante antes mesmo de serem amantes.  Perdeu-se diante do paradoxo: como querer viver intensamente e protegida se, para proteger-se, é preciso considerar que a vida não lhe sorrirá e, por isso, ser menos intensa?

Tudo, então, seria desperdício. Entregar a outro o amor que era dele. Entregar-se ao amor.  Entregar-se.

esperamos para ser felizes

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Esperamos para ser felizes – a melhor hora, a agenda mais vazia, o motivo mais sólido, um dia em que estejamos menos cansados.

Esperamos sem dar-nos conta que, às vezes, perdemos pelo caminho pequenos pedaços da felicidade que procuraremos mais adiante, após realizar o último gesto que, acreditamos, a definirá.

Hesitamos porque não é a melhor hora, esquecendo que, talvez, seja a única hora, a última chance.  Que há mais alegria nos pés entrelaçados na beira do colchonete do que necessidade de um colchão “king size”, quando se passou muito tempo numa cama vazia de espera.  Que meia hora de uma conversa sem importância com o amigo menos íntimo é capaz de iluminar a volta para o local em que se travarão as discussões sobre o que realmente nos importa.

A verdade é que estamos mais prontos para os problemas. Se aparecem, sabemos como resolvê-los. Adiamos a volta para casa para digerí-los numa reunião de última hora ou levantamos de madrugada para acudir o pai cujas dores lhe impedem os movimentos mais ordinários.  Mas não aproveitamos os dias calmos para andar sem rumo pelas ruas ainda ensolaradas, num fim de tarde, ou para ao lado do pai, caminhar na areia da praia, ao encontro do vacilante movimento do mar.

Quando, um dia, a morte de um ente querido nos surpreende, reagimos ao susto: “aprenderei, a partir de agora, a viver melhor”.  Enquanto pensamos no quanto deixamos de viver, a idéia de ser feliz vira obsessão nos dias que se sucedem até que, de novo, a rotina nos atropele, os compromissos nos envolvam e voltemos a planejar nossa felicidade para um futuro nem sempre próximo.

Porque acreditamos que a felicidade é algo que se constrói.

Queremos entrar na casa quando lá já existirem os móveis, as paredes pintadas, as contas já programadas.  Até lá, deixamo-na vazia, ignorando os espaços livres nos cômodos que poderíamos preencher com sonhos, festas, amores.  Evitamos deitar no chão da sala onde o luar nos alcançaria porque ainda não é confortável sem o sofá.  Proibimos a criança de andar de velocípede entre os quartos, antes que chegue a mobília, porque arranharia o chão.  Desperdiçamos essas fotografias únicas, imagens eternas na nossa mente que nos fariam ver a casa construída como o relicário de grandes e mágicos segredos.

Esperamos demais. Não importa o quanto tenhamos esperado: sempre é demais.  Porque a felicidade não ocupa cenários perfeitos.  Ela corre entre as imperfeições e os dias tumultuados, entre os amores ganhos e os perdidos, está nos braços que nos cercam por carinho mas também nos que nos consolam ou nos seguram por medo ou dor.

À frente, quando olhamos de dentro do que construímos, constatamos que a felicidade se fez antes, nas angústias vencidas, nas tentativas de não nos perdermos de quem amamos, nos momentos sem sentido e em silêncio que vivemos e justificam todo o caminho até então.

(Por isso pretendo que meu texto o alcance agora. Que ao percorrer minhas simples palavras, você empreste às minhas idéias um novo sentido.  Que sejamos felizes já, juntos. Enquanto falo e você me ouve, nesse momento em que nos tocamos e afastamos nossa solidão.)

  • Texto republicado no site “Clube de Crônicas”, em 20.09.2015. Link: http://www.clubedecronicas.com.br/esperamos-para-ser-felizes-2/
  • Texto republicado no site “Obvious Magazine”, em 09.01.2016. Link: http://obviousmag.org/puro_achismo/2016/esperamos-para-ser-felizes.html