maquiagem

É nas primeiras horas da manhã que seu equilíbrio mais se arrisca. Saída do banho, os olhos ainda inchados de sono, a mulher passa um algodão umedecido em loção no rosto e obriga-se a despertar para os detalhes da fisionomia, antes de desenhar a maquiagem sobre a pele. Neste momento, observa sua imagem refletida no espelho […]

Carnaval

Percebi que o Carnaval tinha começado quando o bloco me alcançou na porta da empresa. E, na saída do trabalho, deixei passar aquela gente entusiasmada atrás da batucada. Parei sob uma marquise, um pouco irritado por estar na contramão do movimento. Cercado por piratas e super-heróis, um ritmista de expressão fechada me chamou a atenção. […]

do que lembramos, afinal

“A vida não é o que se viveu, mas sim o que se lembra, e como se lembra de contar isso.” (Gabriel García Márquez) Voltando do trabalho e olhando, desantenada, as imagens que passavam em velocidade pela janela do ônibus, revelou-se a singela verdade: não eram os grandes gestos nem as maiores provas de amor […]

beijo

Vivera presa a garantias. Mas, nessa noite, a ternura era urgente. A vida se desmontara e suas expectativas apontavam para o exílio após a dura semana que enfrentou. Portanto, permitiu a aproximação, mesmo desconhecendo os movimentos seguintes. Como não havia outro lugar em que quisesse estar, não havia angústia. Seu lugar era ali, àquela hora, […]

o altar

Terminado o cortejo, correram até a porta da igreja, fugidos da chuva forte que encharcara-lhes as roupas. Refugiaram-se no hall da nave. Contrariada por ter que desviar-se do caminho de casa, onde encontraria a pausa necessária após o exaustivo dia de pêsames, Elisa se separou do grupo formado pelos que se abrigaram ali. Caminhou em […]

mergulho em Porto

Ausentara-se da praia nos últimos anos, evitando o desconforto do chão irregular ou de sair à vila com os pés sujos de areia. No reencontro dessa tarde, disfarçou pegadas, arrastando os pés para apagar os caminhos que, involuntariamente, desenhou na direção do mar. Entrou na água, então, deixando a onda passar e erguê-la por instantes, […]

lembrança

Não foi real embora chegasse a tocá-lo. Não existiu: ninguém o viu, nenhum dedo o apontou. Mas cresceu, como se fosse rosto reconhecido, voz identificada. Me escapou, como os sonhos, quando despertamos; as dores, quando nos enebriamos. Ficou o sentimento do dia em que me iluminei, em que o beijo que, dizem, não beijei me […]