partindo

Não foi o jeito como chegara, jogando no chão da área a bolsa da academia.  Nem o silêncio contínuo enquanto ela lhe contava os problemas do condomínio, já debatidos, já resolvidos nem bem a noite começara.  Não lhe notara a impaciência por estarem guardadas no fundo do armário as roupas que ele vestiria após o […]

fantasia

Todas as noites, Clara imaginava deitar a cabeça sobre o peito de Alberto enquanto repassava o dia em sua mente.  Conversavam.  Ela tinha que adivinhar-lhe as respostas, por vezes alegres, noutras noites tristes. Sorria com as piadas que ele não conheceria fora da fantasia da mulher que, uma vez por semana, escrevia-lhe um longo email […]

passageiro

O mundo ficará quando eu partir.   Para onde vou não sei se me lembrarei do que vivi naquele parque, aqui.   Para onde vou talvez nem leve registros – se tudo acaba, se vai o que sinto, não sei.   Sobra apenas incontestável verdade: o mundo permanecerá.   Mudança após mudança, se reinventará.   […]

quando já não é mais hora

De nada adiantou sentar-se diante dela, diminuindo lugares no sofá da sala pouco iluminada pelo abajur antigo.  Nem incumbí-la da fácil tarefa de arranjar-lhe um pano de chão para apagar as pegadas molhadas, originadas na chuva que caía na rua.  Frustrava-se a tentativa de reeditar a intimidade que há pouco ainda tinham, enxugando os pés, […]

estranho-te

Estranho teu silêncio.   Tua voz dialogava com as imperfeições da minha alma, meus pensamentos ruminantes e  fracas aspirações   –  era uma ponte para um lugar que era bom ocupar.   Acariciavas-me, mais, quando tocavas o espírito desgarrado de mim   – desamparar-me o espírito foi teu gesto pior!   Passo a limpo o […]

a vida por recomeçar

Ajeitou-se diante do espelho na porta de entrada do restaurante, arrumando os cabelos num gesto repetido por sua ansiedade. Checou mentalmente os preparativos com o corpo, a roupa escolhida e as frases pensadas que poderia usar caso não tivessem o que falar dentro do carro, a caminho de sua casa onde ficariam juntos pela primeira […]

mortalidade

Passa. Tudo. Amor. Saúde. Alegria. Dor. Sabemos: passa. Ciclos se fecham. Pessoas se vão. Idéias morrem. Até lugares, paisagens, mudam. Por que, então, chorar a perda, se inevitável é mudança? Por que ausência traz tristeza, vazio, desamparo? Os que amamos, mesmo sem profundidade, quando partem, nos reduzem, nos recordam a mortalidade e nos quebram corações.

o sonho

Começou assim: abraçada ao filho, como se o menino crescido fora ainda bebê, entrou no mar ao encontro de uma amiga. Mas a luz do dia se apagou na primeira pisada na arrebentação. Os pés molhados, o abraço intenso no filho, os passos paralisados diante da escuridão e apenas o contorno da amiga ao longe, entre […]

Castelos de Areia

Sobre as areias dos dias constrói-se a casa, com portas e janelas abertas para o sol.  Pintam-se as paredes com as cores claras dos planos futuros e das histórias vividas.  Com alegria, finaliza-se o trabalho, abrindo-se, com as próprias mãos, uma estrada larga em frente ao cenário construído. Esquece-se da força do mar, cuja presença pode ser […]

alguém que lhe beije as feridas

(Porque me contaram, de forma lírica, que Cuddy beijou a perna danificada de House) maquiagem riscada sobre a pele também roupa cobre lingerie sobre a pele protege carne oculta músculos, órgãos, ossos, sangue, casca sobre alma memórias soterradas. da vivência do espírito, dos pensamentos da mente, do sentimento que os antecede, mais atrás se esconde […]