Ontem o dia era cinza

Ontem era cinza o dia o céu sobre mim o asfalto sob os passos as esquadrias da janela na sala em que estava.   Cinza. Mesmo sem nuvem. Sem som. Só a memória da notícia que chegara e desbotara o presente.   Choveu transparente forte. Incômodos os pés alagados, fria a calça contra a pele […]

do que lembramos, afinal

“A vida não é o que se viveu, mas sim o que se lembra, e como se lembra de contar isso.” (Gabriel García Márquez) Voltando do trabalho e olhando, desantenada, as imagens que passavam em velocidade pela janela do ônibus, revelou-se a singela verdade: não eram os grandes gestos nem as maiores provas de amor […]

beijo

Vivera presa a garantias. Mas, nessa noite, a ternura era urgente. A vida se desmontara e suas expectativas apontavam para o exílio após a dura semana que enfrentou. Portanto, permitiu a aproximação, mesmo desconhecendo os movimentos seguintes. Como não havia outro lugar em que quisesse estar, não havia angústia. Seu lugar era ali, àquela hora, […]

o altar

Terminado o cortejo, correram até a porta da igreja, fugidos da chuva forte que encharcara-lhes as roupas. Refugiaram-se no hall da nave. Contrariada por ter que desviar-se do caminho de casa, onde encontraria a pausa necessária após o exaustivo dia de pêsames, Elisa se separou do grupo formado pelos que se abrigaram ali. Caminhou em […]

amigas num café

Sentadas na mesa do café, as amigas estavam em silêncio. Carolina tinha os olhos perdidos na rua, olhava sem profundidade as cenas que aconteciam na porta do café, na travessia da esquina, a cabeça esvaziada de sentidos.  Ana fixava-se no rosto da amiga, que era uma mulher bonita mas trazia, naquela tarde, uma inexpressividade enorme, […]

insônia

Passara um ano sem dormir direito. Um ano. Rolando na cama, aconchegada entre os travesseiros que, no meio da noite, sufocavam-na. Dizendo aos amigos que as enormes olheiras disfarçadas sob a maquiagem eram da rotina apressada ou, talvez, de uma pequena anemia – comia mal porque o trabalho lhe exigia. Passara-se um ano e todos […]

do amor que se perde sem virar carinho

A gente não percebe o amor que se perde aos poucos sem virar carinho (Nando Reis) Parecia-lhe um desperdício entregar a outro a ternura que reservara para ele.  Por isso, esperou mais uns dias pelo telefonema prometido ou por um SMS, alternativamente.  Mas nada se alterou. Até saírem, antes, observara-o de perto.  Analisou se o interesse […]

esperamos para ser felizes

Esperamos para ser felizes – a melhor hora, a agenda mais vazia, o motivo mais sólido, um dia em que estejamos menos cansados. Esperamos sem dar-nos conta que, às vezes, perdemos pelo caminho pequenos pedaços da felicidade que procuraremos mais adiante, após realizar o último gesto que, acreditamos, a definirá. Hesitamos porque não é a melhor […]

partindo

Não foi o jeito como chegara, jogando no chão da área a bolsa da academia.  Nem o silêncio contínuo enquanto ela lhe contava os problemas do condomínio, já debatidos, já resolvidos nem bem a noite começara.  Não lhe notara a impaciência por estarem guardadas no fundo do armário as roupas que ele vestiria após o […]

fantasia

Todas as noites, Clara imaginava deitar a cabeça sobre o peito de Alberto enquanto repassava o dia em sua mente.  Conversavam.  Ela tinha que adivinhar-lhe as respostas, por vezes alegres, noutras noites tristes. Sorria com as piadas que ele não conheceria fora da fantasia da mulher que, uma vez por semana, escrevia-lhe um longo email […]