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Ninguém nunca lhe disse que seriam as pequenas coisas que destruiriam o grande amor. Diante do juiz a perguntar-lhe se a separação era definitiva, ela sabia que a resposta era sim. Só não lhe pedisse para dizer as razões de sua certeza. Ela soaria patética, apontando dezenas de besteiras sem importância nos manuais de manutenção de relacionamentos: os pés não se cruzam sob o edredon, sempre se esquece de trocar a toalha do banheiro, ele se irrita porque anda descalça até o quintal e demora-se em lavar os pés no bidê, atrapalhando seu sono, ela o estranha depois de dias de viagem a trabalho, o cheiro, a voz, o hálito.

Mas coisas pequenas se somam e viram coisas maiores. A irritação, a cerimônia, a dificuldade que aparece de surpresa, mesmo quando se repetem rotinas pequenas, afasta. Por ele não trocar a toalha, ela se aborreceu. Por demorar-se em lavar os pés, ele não a esperou. Essas coisas em sequência geram sequências de coisas cada vez mais perigosas: dias em que não se tocam, jantares em que não se falam, pensamentos guardados há muito. A vida fica cabendo em espaços cada vez menores. A solidão se espalha pelos espaços maiores.

Diante do juiz, ela poderia dizer, soaria estranhamente melhor, que já não havia chances depois que ele a traíra. Ou ele poderia alegar que as chances terminaram aos poucos porque ela, primeiro, rejeitara-o. Seriam argumentos mais aceitáveis. Quem ouvisse, ainda mais sendo gente de ouvir muitas dessas histórias, pensaria que era apenas mais uma história de amor que não durou para sempre.

Mas a sua era diferente: em pequenas coisas, o amor durara. Na lembrança do primeiro dia em que se interessaram um pelo outro ou da primeira vez em que dançaram. No dia em que ela lhe comprara beterrabas para uma vitamina quando ele, doente, se sentiu mais amado. No projeto não realizado de comprarem juntos a casa onde os filhos, que não chegaram a ter, cresceriam.

De certo, soaria ainda pior tentando explicar também as razões que os fizeram ficar juntos mesmo depois de terem começado a separar-se.

Nada fazia sentido. Não ter sentido é algo com que ela não pôde lidar porque não soube entender. Embora saiba, humilde sabe, que vivemos sem pensar no sentido do que vivemos. Que ele só aparece depois, como um bordado que resulta de pequenos cosimentos sobre o tecido, muitas vezes até por seu avesso. Só ao final, olhando o contexto, aparece o desenho, descobre-se, então, um sentido naquela mistura de cores fabricada por minúsculos pontos.

Pés mergulhados no bidê podem ser pura alegria na corrida moleca do quintal para a cozinha, após recolhidas as roupas esquecidas no varal. Pés mergulhados no bidê podem ser pura tristeza quando ele já dormiu e os passos no quintal processavam a angústia presa depois da indiferença da hora anterior. Viajar sozinho aumenta a saudade, reafirma a ternura e preenche o reencontro de sentimentos tamanhos. Ou mostra o conforto na distância e esfria o caminho de volta com a certeza de que algo bom se perdeu.

Tudo resolvido diante do homem da lei: a separação foi declarada sem explicações, no segundo em que ela piscou pelo espaço de uma vida.
Eles não brigaram por bens, não brigavam por nada. Conciliaram-se.

Desceu pelas escadas, desviando-se da mulher que gritava com o ex-marido às portas do elevador, prometendo-lhe infernizar a vida, e a horrorizara. Em silêncio, contudo, num pensamento puramente espontâneo, ela a invejou apenas por não sentir mais tanta paixão. Aceitar-se livre era assustador. Aceitar-se esvaziada nos sentimentos que a alimentaram durante tantos anos – paixão e raiva, amor e mágoa, felicidade e frustração – era a pior herança daquele instante.

Por sorte, tudo cabe em pequenas memórias. Alguns flashes de sua vida passariam em sua mente no caminho de volta à casa para onde se mudara: risos e lágrimas, cenas descartáveis, besteiras sem tamanho, diálogos profundos. Pôde deitar-se no sofá, exausta, pensar sobre seu dia e emocionar-se. Chorar sozinha. Voltar a ter esperanças. Sentir que o amor passou. Sentir que, de certa forma, o amor ficou.

Dormiu repleta de sentimentos. Pequenos também. Que, somados, fizeram dela uma pessoa maior.