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Sentadas na mesa do café, as amigas estavam em silêncio. Carolina tinha os olhos perdidos na rua, olhava sem profundidade as cenas que aconteciam na porta do café, na travessia da esquina, a cabeça esvaziada de sentidos.  Ana fixava-se no rosto da amiga, que era uma mulher bonita mas trazia, naquela tarde, uma inexpressividade enorme, a pele sem maquiagem, o olhar triste. Observando-a, tinha vontade de sair e deitar-se em casa para um cochilo pelo resto da tarde porque a tristeza da amiga lhe esvaziara as energias.  Mas sabia que tinha que ficar. Ainda que ambas estivessem quietas, ainda que nada se resolvesse, tinha que estar ali – soltar-lhe a mão naquele trecho do caminho era, no mínimo, cruel.

Carolina enxergava as vitrines da loja em frente, espalhava seu desinteresse sobre as roupas coloridas de verão, imaginando que viajaria ao encontro da estação, mesmo estando ainda no inverno, para um mergulho no mar. Iria para o nordeste do país, decidiu num instante, traçou um frágil roteiro mental e esqueceu-se dele, lembrando-se do sonho que tivera noites atrás.

Ela estava num resort, andava em direção à praia, cujas águas eram verde-claro e a areia branquinha, fina, onde seus pés pisavam com suavidade.  Via o amado de longe. Ele estava sorrindo, entre amigos, e não a via. Por algum motivo inexplicado no sonho, eles não se aproximaram. Ela o via ao longe, vê-lo já a deixava feliz porque ele estava feliz. Mergulhava em águas mornas, sentia-se bem, confortável, a claridade era absurda, as cores do mar, da areia, dos biquínis se sobressaíam artificialmente como num desenho animado.

Uma lágrima rolou em seu rosto. Embora sua expressão não se alterasse, ela chorava, não reconhecia na vitrine a alegria que experimentara no seu verão imaginado. Ana passou-lhe a mão pelos cabelos e ela voltou-se para a amiga.

Ouviu Ana elogiar-lhe a beleza física, a pureza dos sentimentos. Sentiu-se inutilmente confortada. Carolina possuía uma racionalidade bem construída. Mesmo na dor, tinha certeza das coisas que lhe acontecera, tinha certeza de quem era, dos momentos em que suas atitudes foram vacilantes e das vezes em que o amado lhe escapou, propositalmente.

Mas as certezas que tinha não construíram o conhecimento necessário para entender todos os porquês que estavam na sua cabeça.  Mesmo sabendo que alguns jamais pudessem ser respondidos – afinal, a vida é preferencialmente ilógica -, afligia-lhe mais, naquele momento, a sensação definitiva do fim.

Ana dizia à amiga coisas boas de ouvir-se quando se está perdida de sua autoestima, jogava a maior parte das culpas sobre o outro, aliviando-lhe de alguns erros cometidos no caminho.

Mas o que Carolina não conseguia dizer à amiga, deixando apenas rolar novas lágrimas, era que, àquela altura, nada poderia consolá-la. Justificativa alguma estancaria a dor profunda em sua alma.  Nesse momento, só se destacava a certeza mais dolorida de todas: ele se fora.  E a desesperança de reconquistá-lo e de voltar a ser amada quebrou-lhe em muitos pedaços, que já haviam sido remendados em razão de outra desilusão amorosa. Ainda estavam frescos os reparos quando ele entrou em sua vida, ocupando espaços ainda maiores. O que a feria profundamente era a inegável verdade que nunca mais poderia beijar os lábios ou sentir a maciez do homem que ainda amava, já esquecida do exato tom da voz que lhe sussurrara as palavras que, para sempre, carregaria na memória de forma doída porque, hoje, esvaziavam-se todas de sentido diante da opção feita pelo amado.

Diante da decepção sofrida, ele lhe escapara integralmente. Não lhe sobravam sequer suas fantasias que, muitas vezes, alimentaram-na nos dias difíceis e nas noites de carência.  Agora, imaginar-se ao lado dele despertava-lhe tristeza, quase um desespero, era preciso abortá-lo até de seus sonhos.

Era o que Ana não entendia porque não seria capaz sem a profundidade dos sentimentos que tinha Carolina. Mas, por saber-se limitada nos poderes de sua amizade, Ana apenas trocou de cadeira, deitou a cabeça sobre o ombro de Carolina e calou-se, segurando a mão direita da amiga.

Ficariam assim por muito tempo ainda: Carolina com o queixo apoiado sobre a outra mão, olhando a rua e chorando num silêncio que era quase um não chorar; Ana lhe segurando a mão para que não escorregasse inteiramente para dentro de sua dor. Depois seguiriam para suas casas, cansadas, descrentes mas estranhamente fortalecidas, ao menos até o fim daquela noite.