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O meu amor deveria ter morrido quando o mataste.

Mas cerca-me à beira da cama quando deito-me para encerrar o dia.

Mesmo abrigado à sombra dos encontros inesperados, contraria-me, acende-me a face e, quando tudo silencia, volta-me em doces memórias.

Tu me deixaste o sentimento que fui obrigada a estancar.

Guardo-o discretamente em mim e, à noite, deixo-o repousar sobre a cômoda, enquanto espero o sono chegar. Porque não posso superá-lo.

Mas como não tenho a quem entregá-lo, endurece em meu coração.  Como o leite da nutriz que, em excesso, empedra se recusado, machuca-me o peito com suas pontas finas.

E, sem que saibas, tu ainda me feres constantemente.

Porque o amor que semeaste cresceu e já não me cabe de volta nas entranhas. Dilatou-se quando me tocaste, abrindo espaços que preenchi com sonhos: de que novos encontros viriam, de que as promessas se cumpririam, de que eu repousaria os lábios sobre teus olhos e tu, a boca sobre meu ouvido, ao final dos dias que atravessaríamos sós.

Como criança nascida já não cabe no útero materno, meu amor não se recolhe facilmente, sem que seja mutilado. De nada adiantou, pois, a tua sentença de morte.  Pois as lembranças ainda persistem nas noites frias e não se perdem, mesmo quando as deixo fugir sem seguir-lhe os passos.

Quando, então, a saudade que sinto é intensa, imagino-te sobre a cama, beijando-me os pés, a virilha e o ventre, deitando sobre mim delicadamente. E tua falsa presença me conforta.

Não abro os olhos para que possa manter-te entre as paredes do quarto.  Não deixo correrem as lágrimas que selariam a melancolia do instante.  Não me mexo. Para que continues existindo em mim, sequer respiro.

E então, toda a dor acalma, todo o vazio se preenche.  Abraço os travesseiros e durmo, frágil e perdoada por imergir em ilusão. Porque ainda pior do que iludir-se é ser incapaz de acreditar – é negar a um amor a chance de existir.